A disputa pelo ouro na nova era Venezuela-Estados Unidos

A disputa pelo ouro na nova era Venezuela-Estados Unidos
A disputa pelo ouro na nova era Venezuela-Estados Unidos - Foto: Crédito Foto: Reprodução / Divulgação
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Em Las Claritas, no coração da principal região de mineração da Venezuela, próximo à fronteira do Brasil e da Guiana, começaram a surgir fissuras na aliança entre o crime organizado, o poder político e as forças de segurança.

By Carlos Suniaga and Enner Agreda Fajardo 

Uma operação das Forças Armadas realizada no começo de junho nas minas ocupadas por grupos armados, seguida pela suposta morte do líder do Tren de Aragua conhecido como “Niño Guerrero”, anunciada por Donald Trump, revela uma tentativa de reorganização do poder numa região estratégica devido às suas vastas reservas de ouro e ao seu papel nas novas negociações entre Caracas e Washington

Foram três explosões que fizeram vibrar janelas, cortinas e portas, assustando os moradores.

“O que está acontecendo?”, perguntou-se uma moradora de Las Claritas cuja casa fica no caminho para uma mina de ouro. 

“Foi horrível, e as pessoas chegavam chorando, dizendo que a cidade havia sido bombardeada”, disse outra moradora.  

— Houve mortos? 

— Sim, e feridos também — respondeu a mulher à equipe de Amazon Underworld. 

No entanto, até o momento, nenhuma fonte oficial divulgou um balanço.  Na manhã da terça-feira, 9 de junho, helicópteros sobrevoaram em baixa altitude as minas de Las Claritas e do Quilômetro 88, no município de Sifontes, no estado venezuelano de Bolívar. Enquanto militares avançavam em direção a acampamentos de garimpeiros e estruturas controladas por grupos armados, na cidade circulavam rumores de confrontos, operações policiais e explosões nas minas sob domínio do crime organizado. 

Moradores de Las Claritas, no sul da Venezuela, protestam na sexta-feira, 12 de junho, três dias após as operações militares na região
Moradores de Las Claritas, no sul da Venezuela, protestam na sexta-feira, 12 de junho, três dias após as operações militares na região – Foto: Cédito Foto: Carlos Suniaga/Amazon Underworld

Três dias depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou um vídeo na rede Truth Social. No centro da imagem aérea, vê-se uma construção erguida sobre o que antes era mata. Com telhado leve, feito de placas verdes do que parece ser zinco ondulado, um tanque de água de plástico e, ao lado, outra construção menor. Alguns segundos depois, tudo explode. Os escombros voam como pedacinhos de papel e são a única coisa visível entre a densa e alta coluna de fumaça preta que se eleva tão alto que chega à câmera.  

Trump afirmou que o ataque havia matado Héctor Rusthenford Guerrero Flores, conhecido como “Niño Guerrero”, líder do Tren de Aragua, durante uma operação realizada em território venezuelano. Washington não especificou o local exato nem apresentou provas conclusivas sobre a morte do criminoso. O governo da Venezuela também não. 

Durante anos, esses locais no sul da Venezuela operaram sob uma dinâmica em que organizações armadas, atores políticos e setores das forças de segurança coexistiam em torno do negócio do ouro. 

Cinco meses após a captura de Nicolás Maduro pelas forças de segurança dos Estados Unidos — o que abriu as portas para o restabelecimento das relações entre o novo governo da presidente interina Delcy Rodríguez e o de Trump — e dois meses depois de Caracas promulgar uma nova lei de mineração que prevê o retorno do investimento estrangeiro, essa sequência de eventos sugere uma possível reorganização do poder no sul da Venezuela.

O movimento de tropas, a intervenção em locais dominados pelo “Sistema” e a suposta neutralização de Niño Guerrero parecem marcar o início de uma nova etapa na disputa pelo controle do que era conhecido como Arco Mineiro do Orinoco, uma zona definida em 2016, mas que já não aparece com esse nome na nova lei de mineração. 

O que é Las Claritas? 

Las Claritas é um povoado de intensa atividade comercial, com trânsito constante de motos, construções simples de madeira, zinco e alvenaria, e uma rede elétrica caótica que fica sem energia por até 16 horas por dia. A rua principal está parcialmente asfaltada e as transversais são de terra vermelha. Nas lojas, em vez de caixas registradoras, há balanças para pesar o ouro, e o bolívar, como moeda, não existe. Ao contrário de outros locais de extração de ouro, algumas minas ficam a 10 minutos da vila.

Esse lugar é um dos maiores núcleos de mineração da Venezuela e do continente americano. Localizado no município de Sifontes, no sudeste do estado de Bolívar e apenas 250 quilômetros ao Norte da fronteira com o Brasil, Las Claritas fica próximo a Las Cristinas, uma das maiores jazidas de ouro do mundo (o quinto em 2016), com reservas comprovadas de 16,9 milhões de onças de ouro. 

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O ouro é o centro do dia a dia. No cartaz, são oferecidos 12 quilos de verduras por 1 ponto, o que equivale a 0,1 grama de ouro
O ouro é o centro do dia a dia. No cartaz, são oferecidos 12 quilos de verduras por 1 ponto, o que equivale a 0,1 grama de ouro – Foto: Crédito Foto: Carlos Suniaga/Amazon Underworld

A profunda crise econômica, social e política pela qual a Venezuela vem passando nos últimos 15 anos transformou Las Claritas em um destino para pessoas de todas as partes da Venezuela, muitas delas profissionais qualificados transformados em mão de obra barata que buscam no ouro uma forma de sobreviver. Não são só eles que buscaram refúgio na localidade, mas também grupos armados venezuelanos e estrangeiros que, ao encontrarem no ouro uma fonte que sustenta suas atividades ilícitas, assumiram o controle da região. 

Na comunidade de San Isidro, onde ficam Las Claritas e o Quilômetro 88, a população é de aproximadamente 15 mil pessoas, segundo o censo oficial, mas o número real chega a cerca de 70 mil, segundo fontes locais, se forem considerados os garimpeiros que trabalham na região como população flutuante. 

Há mais de uma década, Las Claritas está sob o domínio da organização criminosa Sindicato de Juancho ou Sistema. E esse nome não é por acaso: o grupo armado funciona como um sistema de governança criminosa.  Por trás das jazidas de Las Cristinas, há enormes interesses corporativos. A mineradora canadense Crystallex perdeu seu contrato de exploração quando a Venezuela o rescindiu em 2011, e venceu uma arbitragem internacional contra o Estado venezuelano no valor de US$ 1,4 bilhão. 

Famílias inteiras saem da vila após a incursão militar e aparente retirada do grupo armado que controlava o território
Famílias inteiras saem da vila após a incursão militar e aparente retirada do grupo armado que controlava o território – Foto: Crédito Foto: Carlos Suniaga/Amazon Underworld

Outra empresa, a Gold Reserve, passou por um processo semelhante depois da expropriação de seu projeto Brisas em 2009 e conseguiu uma decisão favorável de US$ 740 milhões. As duas empresas já levam anos tentando receber os valores. 

Após a prisão de Maduro, a Gold Reserve anunciou seu retorno e denunciou que suas reservas estavam sendo exploradas “com tecnologia chinesa sob o comando do Cartel de los Soles”. Ironicamente, no mesmo mês, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos modificou silenciosamente a acusação contra Maduro, reconhecendo que o Cartel de los Soles não era uma organização criminosa de verdade, mas sim um sistema de clientelismo e corrupção.  

A Gold Reserve, junto com a Augusta Capital, pretende desenvolver agora o chamado projeto Siembra Minera, que reúne os campos de Brisas e Las Cristinas, que abrigam reservas de aproximadamente 52,2 milhões de onças de ouro. 

Uma mina a céu aberto à qual se chega depois de atravessar a base de operações controlada por Johan Petrica
Uma mina a céu aberto à qual se chega depois de atravessar a base de operações controlada por Johan Petrica – Foto: Carlos Suniaga/Amazon Underworld

O que está acontecendo em Las Claritas? 

A localidade de Las Claritas e o Quilômetro 88 testemunharam, na semana passada, um intenso deslocamento da Força Armada Nacional Bolivariana e a mobilização de grupos armados organizados. Segundo alguns relatos, durante a operação também foram realizadas inspeções nas infraestruturas da Corporação Venezuelana de Mineração (CVM), sobrevoos de helicóptero e operações em acampamentos de garimpeiros em Las Cristinas. 

Naquele momento, dizia-se que o objetivo da operação poderia ser a busca e a neutralização dos líderes do “pranato”, um sistema de liderança criminosa que surgiu nas prisões venezuelanas.  

Antes da criação, em 2016, do Arco Mineiro do Orinoco — que ampliou a exploração de recursos minerais no sul —, as minas venezuelanas já estavam sob o domínio do crime organizado.  Em Sifontes, a figura do “Sistema” é liderada por Juan Gabriel Rivas Núñez, conhecido como “Juancho” ou “Negro Juancho”, e seu segundo no comando, “Humbertico”. Também está presente o Tren de Aragua, com Yohan José Romero, conhecido como “Johan Petrica”.

Essa organização está ligada a outras atividades ilícitas (tráfico de drogas, de armas e exploração sexual), mas não há detalhes sobre o acordo com Juancho e Humbertico para se estabelecerem na região. 

Rua principal dentro da base de operações de Johan Petrica
Rua principal dentro da base de operações de Johan Petrica – Foto: Crédito Foto: Carlos Suniaga/Amazon Underworld
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