A conclusão da usina termonuclear Angra 3 depende exclusivamente da participação da iniciativa privada, segundo a Abdan, que aponta o grupo J&F como peça-chave para destravar o projeto.
A retomada das obras da usina termonuclear Angra 3, localizada em Angra dos Reis, tornou-se um dos desafios mais urgentes na mesa do governo federal às vésperas do início do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Com os canteiros de obras paralisados desde 2015, o empreendimento sobrecarrega os cofres da União com um custo anual de manutenção que atinge a marca de R$ 1 bilhão.
Para o setor nuclear, a equação parece ter uma única variável de sucesso: a atuação de parceiros privados. O diagnóstico é de Celso Cunha, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento De Atividades Nucleares (Abdan), que acredita que o envolvimento da Âmbar Energia, braço do grupo J&F, será o catalisador necessário para encerrar anos de indefinição política e administrativa.
O papel estratégico da iniciativa privada
A entrada do grupo J&F no cenário nuclear ocorreu em outubro de 2025, quando a empresa adquiriu a participação da Eletrobras na Eletronuclear por R$ 535 milhões. Embora a ENBPar mantenha o controle estatal da holding, o mercado enxerga na expertise privada o fôlego necessário para financiar a conclusão de uma obra que já consumiu R$ 12 bilhões, mas segue com apenas 66% de execução física.
Celso Cunha afirmou:
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O governo não quer colocar a participação dele e hoje ele é o majoritário. Mas agora, com a chegada do grupo J&F, isso vai ser resolvido. É um grupo muito forte. Ninguém vai comprar a participação num empreendimento que ele não tem intenção de acabar. O governo demorou demais a tomar essa decisão. Mas a gente acredita que agora vai avançar.
Pressão e prazos para o CNPE
O futuro da usina repousa agora nas mãos do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). O órgão recebeu um prazo de 240 dias do Tribunal de Contas da União (TCU) para apresentar uma solução definitiva para o projeto. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, tem a meta de pacificar o tema ainda em 2026.
Os números revelados pelo TCU reforçam a urgência: a indecisão custou R$ 2,5 bilhões aos cofres da Eletronuclear apenas entre 2024 e meados de 2026.
Além disso, a saúde financeira de empresas como a INB (Indústrias Nucleares do Brasil) está sob risco, já que a dependência excessiva das receitas da Eletronuclear, afetada pela estagnação de Angra 3, tem gerado sucessivos prejuízos.
Perspectivas e impacto econômico
Estimativas atuais do BNDES indicam que finalizar a estrutura exigiria um investimento de R$ 23,9 bilhões. Contudo, o abandono total não se apresenta como alternativa barata: os custos de desmobilização, rescisões e perda de investimentos superariam os R$ 25 bilhões.
A resolução desse impasse será um teste para a capacidade de articulação do novo governo com o setor privado. A conclusão de Angra 3 não é apenas uma questão de engenharia ou dívidas acumuladas, mas um movimento estratégico para a matriz energética nacional, especialmente considerando a crescente demanda por energia para o funcionamento de centros de dados e o desenvolvimento industrial sustentável no Brasil.














