Apoio global à energia nuclear cresce, mas a desinformação ainda é um obstáculo para seu avanço, aponta relatório inédito.
Um estudo abrangente, com mais de 26,5 mil participantes em 34 países, revela uma mudança significativa na percepção pública da energia nuclear. Os dados indicam que o apoio à geração nuclear de eletricidade supera a oposição em 23 das nações analisadas.
Apesar desse avanço, um desafio persistente reside na limitada associação da tecnologia com a geração de energia limpa.
O relatório, intitulado “The Nuclear Confidence Project – Global Public Opinion Report 2026”, destaca que 41,4% da população mundial apoia o uso da energia nuclear, em contraste com 28,5% que se declaram contrários.
Esta pesquisa, que abrange aproximadamente 65% da população global, é considerada uma das mais extensas sobre o tema, reforçando uma tendência internacional de reconhecimento da energia nuclear como um pilar estratégico para a segurança energética, competitividade industrial e, crucialmente, para a descarbonização.
A Mudança na Percepção Pública
A Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN) vê os resultados como um espelho da crescente compreensão sobre o papel vital da energia nuclear.
O presidente da ABDAN, Celso Cunha, ressalta que a percepção pública está evoluindo rapidamente, muitas vezes à frente das políticas energéticas existentes. Isso sublinha a necessidade de um debate público mais informado, baseado em dados técnicos e evidências científicas.
Celso Cunha, presidente da ABDAN, afirmou:
“Os dados mostram que a percepção pública sobre a energia nuclear está evoluindo em diversos países. O que chama atenção é que, muitas vezes, o apoio da população avança mais rapidamente do que as próprias políticas energéticas. Isso demonstra que existe um espaço importante para ampliar o debate público com base em informação técnica e evidências”.
O Descompasso Climático: Energia Nuclear e a Geração Limpa
Um dos achados mais relevantes do relatório é o que os pesquisadores chamam de “descompasso climático”.
Embora as mudanças climáticas sejam apontadas como a principal motivação para novas fontes de energia, apenas 44,9% dos entrevistados associam a energia nuclear à geração de eletricidade de baixa ou nenhuma emissão de carbono.
Este percentual é consideravelmente menor do que o atribuído a fontes como a solar e a eólica, mesmo que a geração nuclear seja intrinsecamente uma tecnologia de emissão zero de gases de efeito estufa.
A ABDAN aponta que essa lacuna representa um desafio comunicacional significativo para governos, empresas e instituições do setor. A falta de associação clara entre energia nuclear e descarbonização dificulta a sua plena integração nas estratégias de transição energética global.
Segurança Energética em Evidência
A preocupação crescente com a segurança do abastecimento elétrico é outro ponto forte do levantamento. Quase 40% dos entrevistados consideram a confiabilidade e a estabilidade do fornecimento de energia uma prioridade para os próximos anos.
Este tema ganhou destaque após crises energéticas globais, influenciadas por conflitos geopolíticos, aumento da demanda e a natureza intermitente de algumas fontes renováveis.
A ABDAN reforça a importância de uma matriz energética diversificada, onde a energia nuclear desempenha um papel único. Celso Cunha enfatiza:
“A discussão energética deixou de ser apenas ambiental. Hoje envolve soberania, segurança nacional, competitividade econômica e atração de investimentos. Nesse contexto, a energia nuclear tem uma característica única: fornecer energia limpa, estável e disponível 24 horas por dia”.
Desafios Persistentes e o Futuro
Apesar do aumento do apoio, a pesquisa revela que a percepção sobre a energia nuclear ainda enfrenta barreiras. Mais de um terço dos entrevistados considera a tecnologia necessária, mas admitem ter conhecimento limitado sobre seu funcionamento.
As preocupações com a segurança, como o risco de acidentes e o tempo de construção de novas usinas, continuam sendo pontos centrais de receio.
No Brasil, os resultados do relatório são particularmente relevantes, impulsionando discussões sobre a conclusão de Angra 3, a expansão do uso da tecnologia nuclear em setores como medicina e agricultura, e o potencial dos pequenos reatores modulares (SMRs).
O país possui vantagens estratégicas, como reservas minerais e domínio tecnológico, que podem ser alavancadas para uma política energética de longo prazo.
A combinação de segurança energética, metas climáticas e o aumento da demanda global por eletricidade sugere que a energia nuclear continuará a ser um elemento central nos debates sobre o futuro da matriz energética mundial nas próximas décadas, exigindo um esforço contínuo para superar a desinformação e reforçar sua posição como uma solução de energia sustentável.
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