Gargalos na infraestrutura de transmissão elétrica no Brasil ameaçam a ‘bonificação locacional‘ para 49 pontos estratégicos de instalação de baterias de armazenamento de energia.
A expansão da energia limpa no Brasil e a crescente necessidade de flexibilidade no Sistema Interligado Nacional (SIN) estão impulsionando o desenvolvimento de tecnologias de armazenamento de energia, como as baterias. No entanto, uma recente análise do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) acende um alerta: gargalos na rede de transmissão podem inviabilizar o incentivo para a instalação de baterias em quase 50 locais considerados estratégicos.
Esta reavaliação, motivada pelos últimos leilões de reserva de capacidade (LRCap) de março de 2026 e atualizações na lista de projetos de geração, revela que, embora 178 barramentos fossem inicialmente promissores para receber a “bonificação locacional”, 49 deles podem ser excluídos. A falta de margem de escoamento adequada nessas localidades representa um obstáculo significativo para o avanço da sustentabilidade energética e a eficiência do sistema.
Reavaliação Crucial para o Setor Elétrico
A revisão conjunta do ONS e da EPE decorreu de mudanças no panorama energético, incluindo os resultados dos LRCap e a exclusão de outorgas revogadas ou contratos de uso da rede rescindidos. Este processo é vital para assegurar que os incentivos sejam aplicados em pontos que realmente beneficiem a operação do sistema, garantindo a segurança energética.
A análise considerou um cenário mais abrangente, unindo a projeção principal dos leilões a um segundo cenário operativo, que simula menor despacho térmico e maior participação da geração eólica, especialmente no período noturno. No cenário principal, apenas seis barramentos no Rio Grande do Norte apresentaram margem de escoamento nula, mas a inclusão do segundo cenário elevou esse número para os preocupantes 49 pontos.
A Bonificação Locacional e Seus Objetivos
A “bonificação locacional” foi concebida como um mecanismo para orientar os projetos de armazenamento de energia para subestações e barramentos que ofereçam os maiores ganhos para o SIN. O objetivo é claro: mitigar congestionamentos na rede de transmissão, reduzir o corte de energia renovável (curtailment), ampliar a flexibilidade operacional e otimizar o atendimento à demanda.
A EPE emprega uma metodologia rigorosa para identificar esses pontos, que, ao receberem um “sinal locacional” positivo, obtêm uma vantagem competitiva nos leilões. A metodologia foi ajustada para incorporar as usinas vencedoras dos leilões recentes e excluir projetos sem viabilidade futura, fortalecendo a precisão da avaliação.
Desafios nos Cenários Operacionais
O ONS detalhou dois cenários operacionais que embasaram a avaliação. O primeiro, cenário principal, focou em condições de pico de demanda no Nordeste, com baixa disponibilidade hídrica e solar e alta participação térmica. Nele, seis barramentos no Rio Grande do Norte já indicavam restrições.
O segundo cenário, por sua vez, simulou uma situação de menor despacho térmico e alta geração eólica, visando entender como as baterias poderiam absorver excedentes e conferir flexibilidade ao sistema. Foi neste contexto que o número de barramentos com margem de escoamento nula saltou para 49.
“Os resultados sublinham as restrições estruturais inerentes à nossa rede de transmissão, especialmente em períodos de alta participação de fontes renováveis variáveis. Tais limitações podem prejudicar o desempenho das baterias, comprometendo sua capacidade de absorver excedentes e fornecer serviços essenciais ao Sistema Interligado Nacional.”
Essa constatação ressalta que as limitações na infraestrutura de transmissão podem comprometer a capacidade das baterias de cumprir sua função estratégica na transição energética, principalmente em regiões com elevada concentração de geração eólica.
Regiões Mais Afetadas pelos Gargalos
A análise preliminar aponta que os estados do Nordeste são os mais impactados por essas restrições. Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba somam 48 dos 49 barramentos identificados sem margem de escoamento, com o restante localizado em Pindaí II (69 kV), na Bahia.
Em Rio Grande do Norte, foram 24 subestações afetadas, enquanto Pernambuco contabilizou 16 e a Paraíba, oito. Essas regiões, com grande potencial eólico, enfrentam o paradoxo de ter alta capacidade de geração de energia limpa, mas limitações na rede de transmissão para escoar essa energia e otimizar o uso de sistemas de armazenamento.
Os gargalos na rede representam um desafio complexo para a consolidação das baterias como peça-chave na matriz energética brasileira. Para o futuro da energia limpa e sustentável no país, é imperativo que haja um esforço contínuo em planejamento e investimento na infraestrutura de transmissão. Somente assim será possível garantir que a bonificação locacional cumpra seu papel de direcionar o armazenamento de energia para onde ele é mais necessário, viabilizando uma integração robusta das energias renováveis e a resiliência do Sistema Interligado Nacional.





















