Uma pesquisa realizada pela Vestas aponta que 79,1% dos desafios do setor eólico brasileiro estão concentrados na rede de transmissão e no curtailment, fatores críticos que exigem transparência e planejamento para sustentar a retomada dos investimentos.
A transição energética no Brasil vive um momento de expectativas renovadas, mas os números revelam que o caminho para o crescimento sustentável da energia eólica enfrenta obstáculos técnicos e regulatórios significativos. Uma sondagem conduzida pela Vestas durante a Brazil WindPower 2026, que ouviu 293 especialistas do ecossistema energético, colocou em evidência que a infraestrutura de escoamento e os cortes de geração — o chamado curtailment — dominam as preocupações de quase 80% do setor.
Esse cenário de cautela não é novo, mas ganhou uma dimensão estratégica em 2026. A urgência por um planejamento mais robusto na transmissão de energia não é apenas uma questão de engenharia, mas o pilar que definirá a viabilidade econômica de novos parques eólicos. Para que o setor avance de forma consistente, será necessário alinhar a expansão dos projetos à capacidade real da rede de entregar essa potência aos centros de consumo.
O desafio da previsibilidade e do escoamento
A pesquisa destaca que, embora o mercado tenha dado sinais de reaquecimento com o anúncio de projetos importantes, como o Complexo Eólico Dom Inocêncio, da Casa dos Ventos, e o Esquina do Vento, da Equinor/Rio Energy, a continuidade desses investimentos exige transparência. Os desenvolvedores buscam, acima de tudo, previsibilidade sobre os critérios que levam aos cortes de carga e sinais de mercado que permitam uma melhor avaliação dos riscos operacionais.
Eduardo Ricotta, CEO da Vestas para a América Latina, afirmou:
“Já tivemos sinais concretos de retomada. Agora, avançar para um novo ciclo de investimentos exige maior previsibilidade sobre as restrições à geração e mais transparência sobre os critérios e as causas dos cortes. Sem isso, torna-se mais difícil dimensionar riscos, projetar receitas e avaliar a viabilidade dos projetos.”
Sinais econômicos e demanda industrial
Para além da infraestrutura física, a localização estratégica de novas demandas, como data centers e parques industriais eletrificados, pode ser um diferencial. Contudo, o impacto positivo dessa nova carga dependerá de um planejamento coordenado. O mercado sinaliza que a precificação da energia precisa refletir melhor o valor do recurso em diferentes horários para orientar o consumo de forma eficiente.
Eduardo Ricotta completa:
“A sondagem confirma a necessidade de maior previsibilidade e de sinais econômicos que reduzam assimetrias no mercado. O planejamento da transmissão define onde e quando haverá capacidade de escoamento. A transparência sobre os critérios e as causas dos cortes permite dimensionar melhor o risco. Já os sinais de preço podem orientar consumo e investimento ao refletir o valor da energia em diferentes horários.”
Inovação tecnológica como diferencial competitivo
Apesar dos gargalos, o setor mantém o otimismo em relação aos atributos da energia renovável. Quase metade dos participantes da sondagem destacou o baixo impacto ambiental da fonte e sua complementaridade essencial ao sistema hidrelétrico. Para potencializar esses resultados, a indústria continua investindo em tecnologia de ponta, como a nova turbina V182-7.2 MW da plataforma EnVentus™, que visa maximizar a eficiência em áreas de ventos médios e baixos.
O futuro da energia eólica no Brasil parece promissor, desde que os entraves de rede sejam equacionados. O próximo ciclo de crescimento dependerá de uma colaboração estreita entre formuladores de políticas públicas, reguladores e o setor privado. O desafio está posto: transformar a abundância de recursos eólicos em um sistema de geração resiliente, previsível e capaz de sustentar o desenvolvimento industrial do País com energia limpa.









