O megaleilão de energia de R$ 515 bilhões priorizou usinas fósseis, ignorando estudos técnicos que sugeriam o uso de baterias para fortalecer a matriz elétrica com sustentabilidade.
O Ministério de Minas e Energia, sob a gestão do governo Lula, tornou-se alvo de intensas críticas e disputas judiciais após a realização de um megaleilão de reserva de capacidade que movimentou R$ 515 bilhões. Contrariando recomendações da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o certame optou por priorizar usinas termelétricas movidas a combustíveis fósseis — como gás natural e carvão — em vez de investir em tecnologias de armazenamento, como as baterias de íon-lítio.
O foco em fontes poluidoras gerou questionamentos no Tribunal de Contas da União (TCU) e na Justiça Federal. Especialistas apontam que mudanças na base de cálculo do leilão fizeram o custo total da contratação dobrar em apenas três dias, elevando preocupações sobre o impacto direto nas tarifas de energia e no compromisso brasileiro com a transição energética.
O papel das baterias na transição energética
O grande gargalo do sistema elétrico brasileiro reside na demanda por potência nos horários de pico, especialmente no final da tarde e início da noite. Enquanto a energia solar e a eólica geram um excedente significativo durante o dia, o sistema carece de flexibilidade à noite. A EPE, em estudos realizados em 2023, defendeu que o armazenamento em baterias seria a solução ideal para “guardar” o excesso renovável e injetá-lo na rede conforme a necessidade.
Além de evitar o desperdício de energia limpa, as baterias possuem uma curva de resposta muito mais rápida do que as usinas térmicas tradicionais. A pasta ministerial, no entanto, justifica a decisão sob a ótica de urgência:
“Esses fatores elevaram a demanda por potência em níveis superiores aos inicialmente projetados, tornando prioritário o incentivo à permanência de fontes capazes de fornecer potência ao sistema elétrico.”
Divergências sobre o futuro da matriz
Embora o governo afirme que um leilão específico para baterias será realizado ainda este ano, o mercado observa com ceticismo a inclusão de usinas a carvão no megaleilão de março de 2026. A EPE já havia alertado que usinas térmicas apresentam alto custo e menor eficiência, pois, por questões operacionais, muitas vezes precisam permanecer ligadas por períodos maiores do que a real necessidade de consumo do país.
A contratação de 17 GW de fontes fósseis, com contratos que podem se estender por até 15 anos, trava a matriz em um modelo de alta emissão de carbono. Por outro lado, o governo argumenta que a infraestrutura das termelétricas é essencial para garantir a segurança energética diante de possíveis secas e riscos de desabastecimento nas hidrelétricas.
Perspectivas e impactos no longo prazo
O impacto financeiro desse leilão, estimado como superior à capacidade produtiva da usina de Itaipu, projeta um aumento de até 10% nas contas de luz dos brasileiros. A decisão de priorizar a construção de novas plantas fósseis, em detrimento de soluções inovadoras, coloca o Brasil em uma posição contraditória frente aos seus compromissos internacionais de descarbonização.
O desfecho dessa disputa judicial e a efetiva realização de um leilão dedicado a fontes de armazenamento serão os próximos passos cruciais para entender se o país manterá a dependência de combustíveis fósseis ou se dará um salto tecnológico em direção a um sistema elétrico verdadeiramente sustentável e resiliente.























