Petrobras e o risco da aposta única na produção nacional de fertilizantes fósseis

Petrobras e o risco da aposta única na produção nacional de fertilizantes fósseis
Petrobras e o risco da aposta única na produção nacional de fertilizantes fósseis - Foto: Reprodução / Freepik | Pixbay
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A estratégia da Petrobras de ampliar fábricas de fertilizantes nitrogenados gera debate sobre a dependência de combustíveis fósseis e a necessidade de diversificar a matriz produtiva agrícola do Brasil.

A Petrobras colocou em pauta um plano ambicioso para elevar a participação das Fafens (Fábricas de Fertilizantes Nitrogenados) no mercado brasileiro, mirando sair de uma fatia de 35% para até 75% da demanda nacional. A estatal justifica a medida como um pilar essencial para garantir a segurança alimentar e reduzir a vulnerabilidade do país frente às oscilações de preços internacionais. No entanto, a estratégia levanta questionamentos sobre a viabilidade econômica de apostar, mais uma vez, em uma rota baseada quase exclusivamente no gás natural.

O movimento da companhia surge em um momento de incerteza geopolítica global, marcada por tensões em regiões estratégicas. Entre 2021 e 2022, o Brasil sentiu na pele o peso de depender das importações, quando o custo de insumos para culturas como café, soja e milho disparou devido ao conflito entre Rússia e Ucrânia. O impacto foi direto nas margens do produtor e na inflação de alimentos, cenário que a Petrobras busca mitigar ao fortalecer a produção interna.

O desafio da competitividade e o aprisionamento tecnológico

A grande interrogação reside no histórico do gás natural no Brasil. Para que a ureia e a amônia nacionais sejam competitivas, é fundamental que o insumo seja abundante e acessível, algo que o mercado brasileiro ainda não consolidou. Ao investir pesado em infraestrutura industrial com foco em combustíveis fósseis, o país corre o risco de sofrer um “aprisionamento tecnológico”. Se os preços globais do gás recuarem, a produção doméstica pode perder fôlego, tornando-se cara demais para o produtor rural, que sempre decidirá com base em custo e eficiência.

“Cabe à sociedade brasileira discutir as rotas de desenvolvimento que desejamos para o país: aquelas baseadas na manutenção da hegemonia dos combustíveis fósseis ou aquelas baseadas em opções mais competitivas, sustentáveis e resilientes.”

Além do gás: um caminho para a diversificação

A comparação internacional mostra que potências como os Estados Unidos e a China alcançaram autossuficiência por possuírem vantagens específicas em gás natural ou carvão. O Brasil, por outro lado, possui um diferencial competitivo distinto: sua capacidade de inovar em rotas renováveis. O Plano Nacional de Fertilizantes já sugere metas que contemplam desde a descarbonização da rota sintética até a utilização de hidrogênio verde e biometano.

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A transição energética abre janelas de oportunidade para os bioinsumos e a fixação biológica de nitrogênio, tecnologias que permitem a descentralização da produção dentro das próprias propriedades rurais. Ao invés de concentrar todos os recursos em uma única alternativa fóssil, especialistas defendem um modelo híbrido. A estratégia de longo prazo para o setor agrícola brasileiro deveria combinar a produção industrial, a importação diversificada e o fortalecimento de tecnologias sustentáveis, garantindo resiliência real contra futuros choques geopolíticos.

O futuro da segurança alimentar brasileira não deve depender da aposta única em preços de mercado voláteis, mas de uma política industrial que aproveite a transição energética para reduzir custos e aumentar a soberania, sem ignorar a necessária descarbonização da economia. O sucesso dessa empreitada depende de decisões que olhem para as próximas décadas, e não apenas para o ciclo conjuntural de preços elevados.

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