O ONS lança uma “segunda linha de defesa” para o sistema elétrico nacional, focando no corte de geração para garantir a estabilidade diante do crescimento da energia solar.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) está implementando uma medida estratégica fundamental para assegurar a resiliência do sistema elétrico brasileiro. A iniciativa visa controlar o aumento da frequência na rede, um fenômeno cada vez mais comum em cenários de alta produção de energia solar fotovoltaica aliada a um baixo consumo de energia. Este novo protocolo representa um avanço significativo na gestão da infraestrutura energética do país.
A ferramenta, apelidada de “segunda linha de defesa”, emerge como resposta aos desafios impostos pela crescente participação das fontes renováveis. Seu ponto mais relevante é a capacidade de realizar o corte comandado de geração, atuando quando a interrupção momentânea da produção, solicitada inicialmente às distribuidoras, não é suficiente para equilibrar a rede. Essa abordagem proativa é crucial para manter a segurança operativa e prevenir desequilíbrios no Sistema Interligado Nacional (SIN).
Adaptando o Sistema à Geração Distribuída
Em um evento no Rio de Janeiro (RJ), Alexandre Zucarato, diretor de Planejamento do ONS, detalhou a nova proposta. Ele explicou que o objetivo principal é evitar instabilidades no SIN, que podem ser provocadas pelo excesso de geração solar em horários de menor demanda, como finais de semana e feriados ensolarados. Nessas condições, a abundância de energia limpa pode elevar a frequência elétrica a níveis críticos, comprometendo a estabilidade do sistema e potencialmente causando reflexos em cascata.
A solução desenvolvida pelo ONS busca mitigar esses riscos, assegurando que o grande potencial da geração fotovoltaica seja integrado de forma segura e controlada. A agência reconhece a importância de adaptar os mecanismos de operação para acompanhar a evolução do parque gerador brasileiro, que se inclina cada vez mais para as fontes sustentáveis.
O Funcionamento da Nova Proteção
A nova estratégia do ONS é complementar ao Erac (Esquema Regional de Alívio de Carga), que tradicionalmente atua cortando o consumo em momentos de déficit de geração. Agora, em vez de focar na falta de energia, o sistema trabalhará no sentido oposto: cortando a geração quando há superávit de oferta, prevenindo a sobrecarga da rede.
O mecanismo operará em três fases distintas:
- Monitoramento Contínuo: Dispositivos automáticos farão o acompanhamento em tempo real da frequência da rede elétrica, identificando potenciais desvios.
- Atuação Automática: Se as intervenções manuais dos operadores não forem suficientes, o sistema poderá automaticamente desligar parte da geração, evitando a elevação descontrolada da frequência.
- Aplicação Prioritária: Inicialmente, a medida será focada na minigeração solar remota, aquelas instalações que estão conectadas “à frente do medidor” e representam uma parcela crescente da capacidade instalada no país.
“Tem um perímetro de usinas que serão cortadas manualmente. Se isso não for suficiente, [se] a frequência começar a subir, automaticamente o dispositivo enxerga a subida de frequência e corta [a geração] de acordo com um critério”, detalhou Zucarato, ressaltando a inteligência por trás do sistema.
A escolha da micro e minigeração remota como prioridade reflete a rápida expansão dessa modalidade e sua crescente influência na dinâmica do setor elétrico. Essa segmentação permite uma gestão mais precisa e eficaz do balanço energético.
Fortalecendo a Confiabilidade com Renováveis
O ONS já possuía um plano emergencial para reduzir a geração de usinas classificadas como Tipo III, que incluem Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), usinas de biomassa e outros empreendimentos conectados diretamente às redes de distribuição. Este plano foi acionado pela primeira vez recentemente, sinalizando a necessidade de novas adaptações.
De acordo com Alexandre Zucarato, a expectativa é que este novo mecanismo de curtailment seja empregado com maior regularidade, à medida que a participação de fontes renováveis, como a energia solar, continua a crescer exponencialmente no mix energético brasileiro. Essa camada adicional de proteção é fundamental para garantir respostas ágeis a eventos de excesso de oferta, minimizando o risco de instabilidades e fortalecendo a operação de todo o Sistema Interligado Nacional.
A introdução dessa “segunda linha de defesa” pelo ONS demonstra o compromisso do Brasil com a transição energética e a integração segura das energias limpas. À medida que o país avança em direção a uma matriz cada vez mais sustentável, a capacidade de gerenciar o balanço entre oferta e demanda com mecanismos inteligentes e automatizados será crucial para a confiabilidade energética e o desenvolvimento contínuo do setor elétrico.




















