A busca global por infraestrutura robusta para data centers coloca o Brasil diante de um desafio estratégico: alinhar a velocidade da expansão energética ao ritmo acelerado do setor de tecnologia.
A aceleração da digitalização e o crescimento vertiginoso do consumo de dados têm colocado o Brasil sob um novo foco de atenção. Segundo Glauco Freitas, presidente da Hitachi Energy no Brasil e líder da companhia na América Latina, o mercado de data centers opera hoje sob uma lógica onde a disponibilidade de energia supera, em importância, o custo tarifário. Durante o evento Energy Summit, no Rio de Janeiro, o executivo destacou que a alta rentabilidade dessas operações — que podem faturar na casa dos US$ 100 milhões diários em unidades de 1 GW — torna a confiabilidade do sistema um diferencial crítico.
O desafio reside no descompasso temporal. Enquanto os gigantes do setor de tecnologia projetam suas instalações para estarem operacionais em períodos de até 24 meses, a maturação da infraestrutura de transmissão nacional pode demandar até quatro anos. Para Freitas, o país precisa superar esse hiato para consolidar sua posição como um hub atrativo de investimentos.
A necessidade de resiliência no sistema elétrico
Os data centers demandam muito mais do que apenas energia renovável a preços competitivos. Eles exigem um nível rigoroso de redundância, frequentemente associado ao conceito de N-3. Na prática, isso significa que a rede elétrica precisa ser capaz de sustentar o fornecimento mesmo após múltiplas falhas, garantindo que o fluxo de dados não seja interrompido.
“O data center quer se estabelecer em 18, 24 meses. A infraestrutura de transmissão de energia vai precisar de 3, 4 anos para ficar pronta. Então tem um descasamento. Eu perco a primeira onda, mas eu tenho que garantir a segunda.”
O executivo ressalta que a regulação, capitaneada pela Aneel, enfrenta a difícil missão de equilibrar a modicidade das tarifas com a necessidade de aportes vultosos em tecnologia de ponta. Essa modernização da rede, além de atender aos novos clientes, é essencial para acomodar a intermitência da geração solar e eólica.
Investimentos e o papel do Brasil no cenário global
Para se antecipar a esse movimento, a Hitachi Energy tem investido pesado em território nacional. Com um aporte de US$ 270 milhões direcionado à ampliação de sua capacidade produtiva, a empresa está modernizando sua fábrica em Guarulhos e preparando a construção de uma nova planta industrial, prevista para 2027. O investimento é complementado por um centro de serviços especializado, focado em otimização e retrofit de ativos existentes.
O papel do Brasil transcende o mercado interno. A robustez das soluções desenvolvidas localmente para lidar com redes renováveis tem colocado as unidades brasileiras entre as mais importantes da Hitachi no mundo. Ao exportar tecnologia para mercados exigentes, como os EUA e a Europa, o país se estabelece como um laboratório global de inovação em resiliência e flexibilidade elétrica.
Com leilões de transmissão e de baterias previstos para o segundo semestre, o setor aguarda medidas que tragam maior agilidade ao licenciamento e à expansão das linhas. Garantir a infraestrutura agora é o requisito básico para que o país não apenas participe, mas lidere a segunda onda de expansão digital que atravessa a América Latina.






















