Um levantamento inédito do Observatório do Clima destaca 37 estratégias viáveis para o Brasil conter suas emissões de metano, apontando o biogás como peça-chave para o setor energético e agropecuário.
O Brasil enfrenta o desafio urgente de reverter o aumento nas emissões de metano (CH4), um gás com potencial de aquecimento global 28 vezes superior ao dióxido de carbono. Em um movimento estratégico para cumprir o Compromisso Global de Metano — que prevê um corte de 30% nas emissões até 2030 —, o Observatório do Clima apresentou um guia com 37 soluções técnicas e operacionais voltadas ao curto prazo.
Os dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) revelam que o país lançou 21 milhões de toneladas de metano na atmosfera em 2024. O setor agropecuário é o principal responsável, respondendo por 75% desse montante, enquanto o gerenciamento de resíduos contribui com 16%. O novo estudo busca transformar esses números alarmantes em um plano de ação pautado pela viabilidade econômica.
O papel estratégico do biogás na transição
A grande aposta do levantamento recai sobre o aproveitamento energético. Ao capturar o metano gerado em aterros sanitários e sistemas de esgoto, o Brasil consegue transformar uma ameaça climática em uma fonte valiosa de energia limpa. Além disso, o uso de biodigestores surge como uma alternativa robusta para substituir o uso de lenha na cocção, reduzindo o impacto ambiental tanto no campo quanto em cozinhas solidárias urbanas.
Exemplos práticos de sucesso já operam no país, como a Central de Tratamento de Resíduos Macaúbas, em Minas Gerais, que converte biogás em eletricidade para suprir 31 mil domicílios. Na Bahia, a termelétrica Termoveder Salvador demonstra a escala desse potencial, operando com capacidade para atender o consumo de cerca de 200 mil habitantes a partir da decomposição de resíduos urbanos.
David Tsai, coordenador do SEEG, afirmou:
“Já estamos ultrapassando o limite de aquecimento global estabelecido no Acordo de Paris e sentimos as consequências pelo planeta. Reduzir o metano é uma ação crítica para retornar à normalidade climática.”
Desafios políticos e o futuro climático
Embora as tecnologias existam e apresentem boa relação custo-benefício, o estudo sublinha que a barreira para a implementação em massa não é técnica, mas política. Para que essas 37 soluções alcancem a escala necessária, o país demanda uma articulação mais coordenada entre o setor público e privado, incluindo investimentos em planos robustos de resíduos sólidos e linhas de financiamento específicas.
O cenário é de urgência: apesar de diversos compromissos internacionais firmados, os índices de emissão continuam em trajetória de alta.
Especialistas reforçam que, por possuir um tempo de vida mais curto na atmosfera em comparação ao CO2, a mitigação do metano é uma ferramenta rápida e eficaz para evitar que o planeta ultrapasse limites perigosos de aquecimento nas próximas décadas. O sucesso dessa agenda, portanto, dependerá da capacidade do Brasil em traduzir diagnósticos técnicos em políticas públicas de impacto imediato.
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