A EPE estuda integrar soluções de armazenamento em usinas hidrelétricas cujas concessões expiram na próxima década, visando otimizar a infraestrutura existente frente à expansão das energias renováveis.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) desenha uma estratégia para transformar o cenário de geração no Brasil ao aproveitar o fim dos contratos de concessão hidrelétrica nos próximos dez anos. A intenção é utilizar cerca de 19 GW em capacidade instalada para implementar sistemas de usinas reversíveis e tecnologias de armazenamento, modernizando ativos que já possuem reservatórios e conexões à rede elétrica.
O movimento busca superar o desafio da intermitência das fontes solar e eólica, que têm forçado as hidrelétricas convencionais a operarem de forma atípica. A ideia central, defendida pelo presidente da EPE, Thiago Prado, é extrair mais valor do patrimônio hidráulico já construído, evitando os altos custos e a complexidade ambiental de projetos iniciados do zero.
Aproveitamento de ativos existentes
Ao participar de um debate promovido pela Copel e pelo portal MegaWhat, Thiago Prado destacou a eficiência de utilizar estruturas que já fazem parte do SIN (Sistema Interligado Nacional). Em vez de uma relicitação comum, o governo estuda formas de incluir serviços adicionais que tragam flexibilidade ao sistema.
“Não simplesmente entregar um contrato novo para explorar outro ativo, mas explorar mais daquele ativo, de uma forma talvez economicamente mais interessante”, pontuou Prado.
Além da otimização técnica, a EPE aponta que utilizar áreas já antropizadas facilita o licenciamento e reduz drasticamente o tempo de implementação. Estima-se que existam 38 GW com potencial para armazenamento hidráulico em locais que já abrigam usinas.
O desafio da flexibilidade e o custo operacional
O setor elétrico vive um momento crítico, onde as hidrelétricas enfrentam desgastes por operarem sob um regime de “liga e desliga” constante, necessário para compensar a variação da geração renovável. Para Marisete Dadald Pereira, presidente da Abrage, o atual modelo de remuneração das hidrelétricas está defasado.
“A concepção daqueles equipamentos foi feita para operar de maneira constante e hoje elas estão nesse ‘liga e desliga’ diariamente. Isso tem provocado desgaste na vida útil dos equipamentos e um custo para os geradores que hoje também não é reconhecido”, afirmou a executiva.
Segundo a entidade, as usinas reversíveis seriam o caminho ideal para organizar essa lógica operacional. Ao funcionar como grandes baterias, essas usinas poderiam prestar serviços ancilares — como controle de frequência e resposta rápida — de maneira muito mais eficiente e menos onerosa para o parque gerador.
Barreiras regulatórias e o futuro do setor
Embora a viabilidade técnica seja promissora, o setor alerta que o desenho regulatório permanece como a maior barreira para a viabilização dos projetos. A definição de modelos de contratação e formas de remuneração são pontos que precisam de celeridade por parte do governo.
Thiago Prado sugeriu que o caminho mais ágil seria a inclusão dessas soluções via leilões de reserva de capacidade. Contudo, ele faz uma ressalva quanto aos prazos: apesar da expectativa de mercado de projetos curtos, a experiência internacional indica que a maturação de usinas reversíveis demanda entre sete e dez anos.
A expectativa do setor é que, ao integrar o armazenamento às estruturas de hidrelétricas com contratos vencendo, o Brasil consiga dar um passo decisivo rumo a uma rede mais robusta, garantindo a estabilidade necessária para a transição energética acelerada que o país atravessa.






















