A expansão de data centers no Paraguai ameaça zerar o excedente de energia da hidrelétrica de Itaipu enviado historicamente ao Brasil, redesenhando o mapa do setor elétrico sul-americano.
O avanço tecnológico e a busca por locais com tarifas elétricas altamente competitivas estão transformando o cenário energético na América do Sul. O governo dos Estados Unidos anunciou recentemente a implantação de um complexo de data centers em solo paraguaio, com capacidade inicial prevista para 2027. Este novo polo digital tem potencial para consumir centenas de megawatts, acelerando uma tendência que já vinha encolhendo a fatia de eletricidade excedente da usina binacional de Itaipu repassada ao Brasil.
Historicamente, o Paraguai utilizava apenas uma fração de sua cota na mega-hidrelétrica, repassando o restante para o mercado brasileiro por meio de acordos diplomáticos. No entanto, impulsionado pela chegada de operações voltadas à mineração de criptomoedas e agora pela inteligência artificial, o consumo interno paraguaio disparou nos últimos anos. Dados do Ministério de Minas e Energia (MME) indicam uma queda expressiva no volume exportado para os brasileiros, evidenciando uma mudança estrutural na dinâmica bilateral.
O Impacto do Novo Complexo Tecnológico
O empreendimento tecnológico, fruto de uma parceria entre a americana Crusoe e a local Araico, será instalado estrategicamente nas proximidades da infraestrutura da usina, no departamento de Alto Paraná. Numa primeira fase, programada para 2027, o complexo exigirá cerca de 106 MW. Contudo, as projeções apontam para uma expansão de longo prazo que pode atingir 280 MW, montante equivalente a quase um quarto de toda a energia paraguaia direcionada ao território brasileiro em 2025.
Especialistas do setor apontam que essa nova demanda não apenas altera o fluxo comercial, mas inaugura uma fase inédita para a gestão dos recursos da binacional.
Esse montante é pequeno, mas pode ser o começo de um novo negócio para Itaipu, o que, naturalmente, pode aumentar a utilização pelo Paraguai dessa energia, com implicações para o Brasil
avalia Luiz Barroso, CEO da consultoria PSR.
Repercussões no Planejamento Energético Brasileiro
Do lado brasileiro, as autoridades já incorporaram essa retração no planejamento de longo prazo. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) ajustou prioridades na modernização do sistema de transmissão, redimensionando investimentos diante da menor necessidade de escoamento da energia excedente. Embora o Brasil mantenha uma situação confortável de oferta, a perda dessa parcela de Itaipu — historicamente utilizada para cobrir picos de consumo no final do dia — exige cautela e estimula a contratação de novas fontes de reserva de capacidade.
As repercussões também alcançam o bolso dos consumidores. Com custos de aquisição atrativos, a energia da hidrelétrica ajudava a mitigar reajustes tarifários nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. A redução drástica desse volume, somada aos impasses nas negociações do Anexo C do Tratado de Itaipu e à transição para um modelo onde o país vizinho comercializará sua energia livremente, adiciona complexidade e volatilidade às futuras tarifas elétricas brasileiras.











