Brasil projeta expansão de 50 GW em armazenamento, mas ainda trava na definição de métricas para a flexibilidade do sistema elétrico nacional.
A transição energética brasileira colocou o setor elétrico diante de um dilema técnico e regulatório: como remunerar atributos essenciais para a segurança do sistema, como flexibilidade, inércia e armazenamento, que antes eram tratados de forma implícita. Especialistas reunidos em debate promovido pela MegaWhat e pela Copel reforçaram que o modelo atual, focado estritamente em energia e potência, já não é suficiente para acompanhar a nova dinâmica da matriz.
O desafio da quantificação
Embora o PNE (Plano Nacional de Energia) aponte a necessidade de até 50 GW em tecnologias de armazenamento nas próximas décadas, o país ainda patina na criação de regras claras. Gustavo Ataíde, do MME (Ministério de Minas e Energia), enfatizou que o governo já enxerga o armazenamento como peça-chave, mas que o principal entrave atual é traduzir essa necessidade em sinais econômicos robustos.
A falta de um marco que quantifique, de forma precisa, o quanto o sistema realmente precisa de flexibilidade impede que investidores tenham a previsibilidade necessária. Para o MME, o foco deve ser o desenho de mecanismos de mercado que valorizem o serviço prestado por ativos como baterias e usinas reversíveis, indo além da simples venda de megawatt-hora.
A mudança de paradigma
Historicamente, o Brasil contava com grandes hidrelétricas com reservatórios para garantir a flexibilidade do sistema. Como esses ativos ofereciam inércia e controle de tensão naturalmente, esses serviços não precisavam de contratação apartada. Contudo, com a rápida expansão da geração renovável, a realidade mudou.
“Enquanto não avançarmos na formalização dessas necessidades, será impossível integrar de forma eficiente as ofertas de novas tecnologias”, destacou Gentil Nogueira, diretor da Aneel.
O diretor ressaltou que, sem uma evolução na formação de preços que incorpore o valor desses serviços ancilares, o sinal econômico para a expansão torna-se escasso.
Urgência no planejamento
O ONS (Operador Nacional do Sistema) reforça o coro pela urgência, alertando que o avanço das fontes solar e eólica exige respostas rápidas. O operador já realiza estudos probabilísticos para entender o impacto do corte de geração renovável e a real necessidade de reserva operativa.
Além das incertezas financeiras, o mercado enfrenta gargalos regulatórios. Questões como licenciamento ambiental e o enquadramento de projetos de reversíveis ainda geram insegurança jurídica. A expectativa é que, ao destravar esses pontos, o país consiga atrair o capital necessário para sustentar a confiabilidade do sistema elétrico em um cenário de matriz cada vez mais variável e intermitente.






















