O Bradesco BBI adquiriu uma participação de quase 15% na Motiva para liquidar dívidas da Mover Participações em recuperação judicial, com aprovação do Cade, reforçando sua presença no setor elétrico e no segmento de energia limpa.
Em um movimento estratégico que redesenha parte do cenário corporativo brasileiro, o Bradesco BBI, braço de investimentos do Grupo Bradesco, formalizou a aquisição de uma fatia de 14,86% do capital social da Motiva, anteriormente conhecida como CCR. Esta operação é um desdobramento crucial no plano de recuperação judicial da Mover Participações, que utiliza essa transferência de ativos para honrar suas obrigações financeiras junto ao banco.
A transação, que obteve aval sem restrições do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), transcende a esfera puramente societária. Sua análise pelo órgão regulador de concorrência foi estendida ao setor elétrico devido às diversas atividades das companhias envolvidas em segmentos como geração distribuída, distribuição e comercialização de energia. Este aspecto sublinha a crescente interconexão entre o mercado financeiro e a infraestrutura de energia do país.
Acordo Estratégico e Aval do Cade
O processo de dação em pagamento, método pelo qual um bem é entregue para quitar uma dívida, foi central para a concretização do acordo. As ações da Motiva, que pertenciam às subsidiárias da Mover — Sincro Participações e Sucea Participações, ambas também em recuperação judicial —, agora passam para o controle do Bradesco BBI.
Para o banco, esta é uma oportunidade de diversificar seu portfólio de investimentos, inserindo-se mais profundamente em um segmento com alto potencial. O valor exato da transação não foi divulgado publicamente.
A aprovação do Cade demonstrou que, apesar das sobreposições identificadas em áreas como a comercialização de energia, as participações conjuntas das partes no mercado energético brasileiro estão abaixo dos limites considerados preocupantes pelo órgão. Isso garante que a operação não trará prejuízos significativos à concorrência e ao ambiente de negócios.
A Motiva e seu Elo com a Energia Sustentável
A Motiva já possui uma atuação consolidada em geração distribuída, com usinas fotovoltaicas próprias instaladas ao longo de suas rodovias. A energia solar gerada é primariamente utilizada para compensar o consumo de suas próprias operações, um exemplo prático de economia de energia e sustentabilidade.
Além disso, a companhia detém participações minoritárias em empreendimentos do Complexo Eólico Oitis, que abastecem suas operações de transporte sobre trilhos no estado de São Paulo, evidenciando um compromisso com fontes de energia limpa.
Um avanço notável da Motiva é a estruturação de sua própria comercializadora de energia, que aguarda aprovação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Inicialmente focada na gestão interna de energia para o grupo, a comercializadora planeja expandir seus serviços para terceiros, oferecendo compra e venda de energia, suporte na migração para o Ambiente de Contratação Livre (ACL) e gestão de contratos e riscos. Essa iniciativa reforça a capacidade do grupo de se posicionar como um ator relevante na transição energética.
Análise Concorrencial e o Futuro da Comercialização
A principal preocupação do Cade residia na potencial sobreposição de atividades no segmento de comercialização de energia. No entanto, como a comercializadora da Motiva ainda não está em pleno funcionamento, a sobreposição foi classificada como potencial e futura.
A análise apontou que a participação combinada das partes no ACL e no Ambiente de Contratação Regulada (ACR) permanece na faixa de 0% a 10%. O Bradesco BBI, por sua vez, possui uma participação minoritária na EPN, uma empresa de distribuição de energia. O banco argumenta que essa atividade não deve ser atribuída ao seu grupo por não conferir direitos de controle, um ponto considerado pelo Cade na sua avaliação.
Um especialista do setor afirmou:
Este tipo de operação ressalta a importância da resiliência empresarial e da adaptação. Ver um ativo de infraestrutura de energia, como a Motiva, ser parte de uma reestruturação financeira complexa da Mover, enquanto atrai um grande player como o Bradesco BBI, mostra a dinâmica do nosso mercado energético.
Outras Movimentações no Setor
Em um cenário de efervescência no setor elétrico, o Cade também deu luz verde para outra operação significativa: a aquisição pela Energisa de cinco usinas solares de micro e minigeração distribuída (MMGD) da Matrix Energia. Estes ativos, com uma capacidade total de 20 MW em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, faziam parte de um portfólio maior que a Matrix havia negociado anteriormente com a Thopen, mas que não foi integralmente concluído, culminando nesta nova reconfiguração de ativos.
A entrada do Bradesco BBI como acionista relevante da Motiva não apenas fortalece a posição do banco no setor elétrico e no segmento de energia limpa, mas também oferece um novo horizonte para a empresa em um momento de reestruturação. Este movimento ilustra a crescente intersecção entre o capital financeiro e o desenvolvimento de infraestrutura de energia sustentável no Brasil, apontando para um futuro de maior integração e dinamismo no mercado energético. A reconfiguração da Mover Participações, por sua vez, segue seu curso, com impactos que se estenderão pelos próximos anos.
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