O contraste entre os valores de arrendamento de terras para torres eólicas nos Estados Unidos e no Brasil revela disparidades significativas, com agricultores americanos recebendo rendas substancialmente superiores.
A disparidade na remuneração pelo arrendamento de terras para parques eólicos chama a atenção de especialistas e produtores rurais. Enquanto o agricultor John Dollinger, proprietário de terras em Grundy County, no estado de Illinois, fatura cerca de R$ 600 mil anuais com dez turbinas em sua propriedade, a realidade dos produtores no Nordeste brasileiro é bastante distinta. Dados compilados revelam que o ganho mensal por torre no solo americano supera consideravelmente as médias observadas em terras brasileiras.
O modelo de negócio adotado por Dollinger exemplifica a integração entre a produção agrícola e a geração de energia renovável. Cada unidade instalada em sua fazenda gera aproximadamente 12 mil dólares por ano, valor que sofre ajustes conforme a inflação. Ao converter esse montante para a cotação de outubro de 2026, chega-se a uma média de quase 5 mil reais mensais por turbina, um valor que serve como base comparativa para entender o mercado internacional de energia limpa.
Diferenças de mercado e sigilo contratual
No Brasil, a ausência de transparência nos contratos torna difícil mensurar o lucro exato dos proprietários. Relatos de mercado indicam que o arrendamento em regiões do Nordeste oscila, em média, entre R$ 600 e R$ 2 mil por torre mensalmente. A falta de órgãos oficiais que centralizem essas informações gera incerteza para o produtor rural na hora de negociar com as empresas de energia.
A ABEEólica, associação que representa o setor, reforça que não possui acesso aos termos contratuais, tratando-se de uma negociação privada. Sobre as variações de valores, a presidente executiva da entidade, Elbia Gannoum, ressalta a complexidade dessas parcerias:
A negociação é direta entre a empresa e o dono da terra, o que torna difícil padronizar ou fiscalizar os ganhos, uma vez que as potências das turbinas e as condições locais variam drasticamente.
Impacto no uso da terra e perspectivas
Apesar da presença das gigantescas estruturas metálicas, o aproveitamento do solo para a agricultura permanece elevado. Nos Estados Unidos, estudos do USDA (Departamento de Agricultura) indicam que a grande maioria das áreas arrendadas continua sendo cultivada normalmente, com as turbinas ocupando uma fração mínima do terreno. Para muitos produtores americanos, o arrendamento funciona como uma espécie de aposentadoria garantida e estável.
Entretanto, o cenário não é isento de críticas. Existem relatos de resistência em comunidades rurais, onde produtores temem a ocupação indevida de terras produtivas por estradas de acesso ou o impacto visual e sonoro no entorno. No Brasil, estudos acadêmicos apontam para contratos com cláusulas de confidencialidade rigorosas e multas rescisórias elevadas que, por vezes, oneram desproporcionalmente o proprietário rural.
À medida que o setor de energia eólica cresce, a transparência nos contratos emerge como uma necessidade crítica. O caso de Illinois serve como um parâmetro de eficiência econômica, mas as diferenças técnicas, como a potência de cada gerador e o modelo de remuneração — que pode ser fixo ou percentual sobre a energia gerada —, devem ser cautelosamente avaliadas pelos agricultores antes de qualquer compromisso de longo prazo.














