O setor siderúrgico brasileiro clama por financiamento climático com juros baixos e prazos longos para viabilizar sua descarbonização.
A jornada rumo a uma indústria de ferro e aço mais sustentável no Brasil esbarra em um obstáculo financeiro significativo. Especialistas apontam que o acesso a linhas de crédito com condições favoráveis, como taxas de juros reduzidas e prazos estendidos, é crucial para que as empresas do setor consigam implementar as transformações necessárias para reduzir suas emissões de carbono.
A necessidade de infraestrutura para o escoamento de combustíveis de baixo carbono também emerge como um ponto crítico. Sem a garantia de que alternativas mais limpas estarão disponíveis onde são necessárias, os investimentos em novas tecnologias correm o risco de se tornarem inviáveis, comprometendo o avanço de metas ambientais.
Financiamento Climático: Um Elo Faltante para a Siderurgia
A diretora-executiva do Climate Finance Hub Brasil, Christinne Maroun, destacou que, apesar de existirem iniciativas importantes de financiamento climático no país, como o programa Eco Invest, elas ainda não alcançam o setor siderúrgico com a intensidade necessária. A pesquisa Caderno Setorial de Ferro & Aço, que abrangeu sete das maiores produtoras nacionais, revelou que, embora a maioria das empresas esteja engajada em aumentar o uso de energia renovável, uma parcela considerável ainda não estabeleceu metas formais de corte de emissões.
Maroun afirmou:
Temos hoje iniciativas importantes, como Eco Invest, por exemplo, que traz um financiamento mais barato, mais interessante, mas tem chegado muito pouco no setor siderúrgico.
O desafio se intensifica ao considerar a pressão pela competitividade, acentuada pela concorrência internacional, especialmente a do aço chinês.
O Dilema da Descarbonização em Setores Intensivos em Energia
A produção de ferro e aço está intrinsecamente ligada a processos de difícil descarbonização, devido ao alto consumo energético e ao uso de insumos como o carvão. A transição para tecnologias mais limpas exige um volume considerável de capital, com condições de pagamento que acompanhem a natureza de longo prazo desses investimentos.
Maroun ressaltou:
São projetos que precisam de um financiamento diferenciado, de financiamento climático específico, com condições melhores, menor taxa de juros, e maior prazo para pagamento, porque senão a gente também mata a competitividade da empresa e acaba com nossa indústria.
Infraestrutura e Cadeias de Valor para Combustíveis do Futuro
Além do financiamento direto nas plantas industriais, a viabilização da descarbonização depende do desenvolvimento de cadeias de valor robustas para combustíveis alternativos. O hidrogênio verde, por exemplo, surge como uma promessa, mas sua adoção em larga escala requer não apenas a produção a partir de fontes renováveis, mas também a garantia de que ele chegará efetivamente às indústrias consumidoras.
O gás natural também é visto como um combustível de transição, porém, sua disponibilidade e infraestrutura de distribuição limitada o tornam uma solução parcial.
A executiva explicou:
O gás natural não chega em muitas das plantas. Precisamos que essa cadeia de valor seja desenvolvida e que esses combustíveis cheguem onde a empresa está.
Avanço em Ações, Lacunas em Metas e Transparência
A pesquisa do Climate Finance Hub Brasil indicou que, enquanto 71% das empresas pesquisadas adotam ações de circularidade, reúso e reciclagem, e todas possuem estruturas de governança climática, a qualificação técnica e a clareza nos planos de transição ainda apresentam deficiências. A metodologia ACT – Accelerate Climate Transition revelou que o setor siderúrgico obteve uma pontuação baixa em sua narrativa e tendência futura, sinalizando um ritmo lento de transformação estrutural.
O uso de biomassa e a ampliação do aproveitamento de sucata e fornos elétricos são apontados como oportunidades. No entanto, a expansão do uso de biomassa, por exemplo, depende de oferta sustentável e rastreável, além da articulação entre governo, fornecedores e indústrias. A capacidade de comprovar as credenciais ambientais da produção brasileira se torna um diferencial estratégico, especialmente diante de mecanismos como o CBAM (Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira) da União Europeia, que pode valorizar as vantagens competitivas do Brasil.











