O sistema elétrico brasileiro enfrenta o desafio de suprir a demanda crescente por potência e flexibilidade, exigindo novos marcos regulatórios para integrar baterias e viabilizar a transição energética nacional.
A matriz energética brasileira vive um momento de transição acelerada, impulsionada pela entrada massiva de fontes renováveis e pelo aumento constante do consumo. No entanto, o Sistema Interligado Nacional (SIN) esbarra em um gargalo crítico: a necessidade de garantir a flexibilidade do sistema, um atributo essencial para lidar com a intermitência das fontes limpas e a variabilidade climática, mas que ainda carece de uma estrutura de mercado adequada para sua remuneração.
De acordo com um estudo recente da Volt Robotics, o país precisará expandir sua capacidade entre 4,5 GW e 6,5 GW até 2028. Para especialistas do setor, o sucesso dessa expansão passa obrigatoriamente pela criação de políticas específicas que valorizem o armazenamento de energia, especialmente através de sistemas de baterias, conhecidos como BESS (na sigla em inglês), garantindo assim um fornecimento estável e eficiente.
A busca por sinais econômicos claros
O debate, que ganhou força durante um evento da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), gira em torno de como capturar o valor que essas tecnologias oferecem. Atualmente, os sistemas de baterias entregam benefícios sistêmicos que não estão sendo devidamente precificados, o que desestimula novos investimentos estruturais no setor.
“Se a gente tiver um preço realista da energia e dos serviços que a gente precisa, o armazenamento é extremamente competitivo”, pontua Fábio Lima, diretor-executivo da Absae.
Para o executivo, a chave está na separação dos atributos de potência e flexibilidade. Atualmente, o valor gerado pelas baterias — que poderiam reduzir a demanda na ponta e otimizar o uso da rede — permanece invisível, impedindo que o mercado alcance sua plena maturidade operacional.
Eficiência financeira e segurança sistêmica
Um dos pontos mais convincentes levantados pela Volt Robotics é a vantagem financeira das baterias em comparação às usinas termelétricas tradicionais. As estimativas indicam que a contratação de BESS pode reduzir a receita fixa necessária entre 38% e 64% em relação aos últimos leilões de reserva de capacidade. Somando ganhos operacionais e a redução de encargos setoriais, o benefício econômico anual poderia atingir R$ 6 bilhões.
Além da economia, as baterias surgem como uma solução estratégica para o aproveitamento de energia desperdiçada. Cerca de 88% da capacidade de recarga dos sistemas de armazenamento poderia ser suprida pelo excedente de fontes renováveis e pelo vertimento turbinável de hidrelétricas, evitando o desperdício conhecido como curtailment.
Governo aponta para novas diretrizes
O Ministério de Minas e Energia (MME) reconhece a urgência do tema. A secretária nacional de Transição Energética, Mariana Espécie, afirmou que o governo está integrando os critérios de flexibilidade ao planejamento energético de longo prazo. A expectativa é que o próximo Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) traga atualizações significativas sobre a necessidade de baterias no sistema.
A perspectiva para os próximos anos é de uma integração gradual, mas contínua, dos sistemas de armazenamento. Com a meta de agregar aproximadamente 7 GW em baterias na próxima década, o sucesso da operação dependerá, em última análise, da agilidade do governo em estruturar leilões que reconheçam e remunerem, de forma justa, a flexibilidade necessária para manter o SIN resiliente diante de eventos climáticos extremos e da modernização do consumo brasileiro.











