O aumento da mistura de etanol na gasolina brasileira tornou-se combustível para o embate político entre o governo Lula e a oposição liderada pelo senador Flávio Bolsonaro nas eleições.
A histórica trajetória do Brasil como referência global em biocombustíveis enfrenta um momento de polarização. A recente decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) de elevar de 30% para 32% o teor de etanol anidro na gasolina comum trouxe a pauta energética para o centro das discussões eleitorais. A medida, vigente desde agosto, busca diminuir a dependência das importações de combustíveis fósseis, projetando uma redução anual de cerca de 900 milhões de litros na necessidade de compra externa.
Enquanto o setor do agronegócio celebra o estímulo à produção nacional de energia limpa, a política pública é alvo de críticas contundentes. O senador Flávio Bolsonaro, do PL, tem explorado o desgaste da medida junto aos consumidores, associando o aumento do biocombustível à chamada “reduflação” — o fenômeno em que produtos mantêm o preço, mas perdem em qualidade ou quantidade.
Debate técnico versus retórica política
O parlamentar utilizou suas plataformas digitais para argumentar que a mudança prejudica o motorista e levanta incertezas sobre a integridade dos motores. A postura de Flávio Bolsonaro encontrou eco em parte da indústria automotiva e resultou em iniciativas legislativas de aliados para tentar reverter a resolução do CNPE. Contudo, especialistas do setor minimizam os temores sobre a frota circulante.
“Eles foram projetados para operar com qualquer mistura de etanol, de 25% a 100%”
explica Rogerio Gonçalves, da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), reforçando que a grande maioria dos veículos brasileiros possui tecnologia flex. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, avaliações rigorosas em dezenas de modelos de veículos e motocicletas atestaram a segurança da nova proporção.
Impacto e futuro da transição energética
O setor de bioenergia reagiu prontamente às críticas de Flávio Bolsonaro. Em nota técnica, seis entidades de peso da cadeia sucroenergética refutaram a comparação da mistura com práticas inflacionárias, classificando a retórica do senador como um ataque desonesto a uma política de Estado consolidada ao longo de sucessivos governos.
Independentemente do resultado das urnas, analistas como Marcelo Alvarenga, do Eurasia Group, acreditam que a espinha dorsal da política de biocombustíveis deve ser preservada. O compromisso do Brasil com o Acordo de Paris e as metas da Lei do Combustível do Futuro colocam a expansão do etanol como pilar estratégico para a descarbonização da economia até 2035, mantendo o país na vanguarda da transição energética global.
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