O mercado de energia brasileiro deve enfrentar uma instabilidade acentuada nos próximos meses, com oscilações diárias que podem ultrapassar 100%, conforme projeções do Itaú BBA.
O setor elétrico brasileiro entra em uma fase de alta instabilidade nos preços de curto prazo. Segundo um levantamento recente do Itaú BBA, assinado pelos analistas Fillipe Andrade, Lucas Guimarães e Lorena Fernandez, a volatilidade intradiária deverá ser a tônica entre agosto e outubro de 2026. A previsão indica que, apesar de uma possível queda nos valores médios em diversos cenários, a variação ao longo do dia será extremamente agressiva.
Para os agentes do mercado, o desafio não reside apenas no patamar médio do custo da energia, mas no comportamento assimétrico das curvas de preços. O modelo do banco estima valores entre R$ 141/MWh e R$ 170/MWh na maior parte das simulações, podendo atingir R$ 318/MWh apenas sob condições de demanda estressada.
O impacto da rampa noturna no sistema
Essa variação brusca tem um culpado técnico: o perfil atual de consumo e a crescente penetração da energia solar no SIN (Sistema Interligado Nacional). Durante as horas de maior incidência solar, a oferta renovável inunda o sistema, empurrando os preços para o piso regulatório de R$ 57,31/MWh.
Contudo, ao cair da tarde, a produção solar entra em declínio vertiginoso justamente quando o consumo das famílias e do setor comercial atinge o pico. Para suprir essa lacuna, o sistema precisa acionar geração termelétrica de custo mais elevado, concentrando a pressão de alta entre as 17h e 20h.
“Os resultados servem como uma ilustração clara do valor que a flexibilidade possui hoje no sistema elétrico, destacando que ativos capazes de modular sua produção para os horários críticos devem ser os maiores beneficiados nesse ambiente de elevada oscilação.”
Liquidez limitada no mercado de contratos
A volatilidade no mercado de curto prazo, conhecido como PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), dificilmente será totalmente absorvida pelos contratos futuros. O Itaú BBA alerta que o mercado de comercialização enfrenta um gargalo de liquidez, dificultando que a queda nos preços spot chegue ao consumidor final ou aos contratos de longo prazo.
Três fatores explicam essa trava: o risco de crédito elevado após o colapso de algumas comercializadoras de energia, o retorno forçado de grandes consumidores ao mercado após quebras contratuais e a estratégia cautelosa de geradores. Muitos produtores preferem manter parte da energia descontratada para aproveitar as janelas de preços altos nos horários de pico.
Diante desse cenário, a palavra de ordem para o segundo semestre de 2026 é cautela. Enquanto as condições hídricas, influenciadas pelo El Niño, sugerem um alívio nos fundamentos físicos do sistema, o emaranhado de questões financeiras e a nova realidade da matriz energética garantem que a volatilidade continue sendo o maior desafio para o planejamento do setor nos próximos meses.






















