Uma nova tecnologia desenvolvida na Unicamp utiliza CO₂ biogênico para secar o bagaço da cana, prometendo um salto de 50% na exportação de bioeletricidade para o país.
O setor sucroenergético brasileiro está prestes a ganhar um aliado estratégico para otimizar sua eficiência operacional. Pesquisadores da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) criaram um método inovador que utiliza o dióxido de carbono gerado na fermentação do caldo para secar o bagaço da cana-de-açúcar, superando desafios históricos de umidade e segurança no processamento da biomassa.
A inovação, que agora chega ao mercado por meio da Quimergia Inovação — uma *spin-off* ligada à Agência de Inovação Inova Unicamp —, resolve um gargalo técnico crítico. Ao substituir o uso de gases de combustão convencionais pela inércia do CO₂, as usinas deixam de lidar com o risco constante de incêndios, comuns em processos que envolvem ar atmosférico, fuligem e cinzas.
Segurança e eficiência termodinâmica
Ao contrário das técnicas tradicionais, onde a presença de oxigênio cria um cenário favorável para a ignição, a solução da Quimergia utiliza as propriedades do CO₂ biogênico. Esse gás atua na modificação da tensão superficial da água contida no bagaço, acelerando a secagem sem a necessidade de temperaturas excessivas que poderiam comprometer a estrutura do material ou aumentar o risco operacional.
“Os métodos atuais falham em resolver esses problemas de forma segura e econômica, pois os gases de combustão contêm elevada concentração de oxigênio, favorecendo reações de oxidação e o risco de ignição”, afirma Jean-Christophe Bonhivers, cofundador da Quimergia Inovação e pesquisador da FEQ.
Impacto na rede elétrica e economia verde
A eficácia do novo sistema é medida pelo aumento na qualidade da biomassa. Com a elevação do teor de matéria seca de 50% para 80%, a capacidade de geração de vapor de alta pressão nas caldeiras das usinas pode crescer 30%. O resultado prático para o Sistema Interligado Nacional (SIN) é uma oferta até 50% maior de energia elétrica excedente.
Além do ganho direto na exportação de eletricidade, a tecnologia se alinha perfeitamente ao conceito de economia circular. Como o CO₂ utilizado é de origem biogênica, o ciclo permanece neutro em carbono, já que o gás é reabsorvido pela cana durante seu crescimento. Esse excedente energético abre ainda portas para o setor investir em novas frentes, como a produção de hidrogênio verde via eletrólise.
Com a validação laboratorial concluída, a equipe da Quimergia agora concentra esforços na montagem de uma unidade piloto industrial. A solução foi desenhada para permitir um *retrofit* ágil nas cerca de 400 usinas brasileiras, consolidando o potencial do país como líder global em energias renováveis e soluções sustentáveis de alto valor agregado.
















