China transforma deserto de Kubuqi em muralha solar de 400 km para abastecer cidades

China transforma deserto de Kubuqi em muralha solar de 400 km para abastecer cidades
Placas de energia fotovoltaica instaladas na bandeira de Dalad, no deserto de Kubuqi, na China - Victoria Damasceno/Folhapress
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A China está construindo uma gigantesca “Muralha Solar” no deserto de Kubuqi, unindo geração de energia fotovoltaica em larga escala e estratégias avançadas de combate à desertificação ambiental.

A transição energética global ganha um novo e audacioso capítulo com a iniciativa chinesa de transformar o deserto de Kubuqi, na Mongólia Interior, em um imenso polo de energia limpa. Com 400 km de extensão e 5 km de largura, este projeto de infraestrutura busca converter regiões áridas em uma fonte vital de eletricidade para grandes metrópoles, consolidando-se como uma das maiores instalações fotovoltaicas do planeta.

O empreendimento não se limita apenas à instalação de painéis solares; ele integra um esforço multifacetado de sustentabilidade. O objetivo é equilibrar a alta demanda energética do país — impulsionada pela eletrificação da frota e pelo crescimento de centros de dados — com o controle da degradação do solo, criando um modelo onde a tecnologia e a natureza operam em conjunto para garantir a segurança energética.

A engenharia por trás da Grande Muralha Solar

O projeto, que já conta com 27,3 gigawatts instalados, projeta atingir uma capacidade total de 60 gigawatts. Essa escala monumental é estratégica: o deserto oferece espaço vasto e alta incidência de luz solar, superando as limitações físicas dos centros urbanos. Ao posicionar a geração próxima às áreas de consumo, a China busca otimizar o transporte de energia através de linhas de transmissão, mitigando gargalos técnicos e custos operacionais típicos de projetos renováveis de longa distância.

Segundo Wang Zhaosheng, diretor do Departamento de Silvicultura e Pastagens da Mongólia Interior:

“Através do desenvolvimento integrado do controle da areia e fotovoltaico, alcançamos o ganha-ganha de aumentar o verde e a energia.”

Combate à desertificação e uso tridimensional do solo

Além do foco em sustentabilidade, a “Muralha Solar” serve como barreira contra o avanço das dunas que ameaçam cidades e a própria capital, Pequim. A estratégia da Administração Nacional de Florestas e Pastagens utiliza um conceito de ocupação tridimensional: painéis geram energia na parte superior, enquanto a sombra e a proteção proporcionada pelas estruturas favorecem a recuperação do solo e o cultivo de vegetação nativa no nível inferior.

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Essa abordagem tem apresentado resultados concretos na recuperação ambiental da região. Dados indicam que a cobertura vegetal na área cresceu de 5% para cerca de 30%, demonstrando que parques solares bem planejados podem servir como catalisadores para a restauração de ecossistemas degradados e até mesmo para a criação de espaços dedicados à pastagem.

O equilíbrio entre renováveis e combustíveis fósseis

Embora o avanço da energia solar seja expressivo, o governo chinês mantém o uso do carvão como suporte para a estabilidade da rede. Especialistas como Gang He, da Faculdade Baruch, destacam que a Grande Muralha Solar é fundamental para aliviar a pressão em períodos de pico, reduzindo a dependência constante de fontes convencionais de emissão intensiva de carbono.

No entanto, o cenário ainda é de transição. Huang Zhiqiang, vice-presidente executivo da Mongólia Interior, ressalta a natureza intermitente das fontes renováveis:

“A fotovoltaica, que chamamos de intermitente, gera eletricidade quando há sol e não gera quando não há; ao meio-dia gera muito, à noite não gera. Por isso, por um lado impulsionamos a construção de armazenamento, mas, fundamentalmente, ainda não podemos prescindir do suporte da energia termelétrica a carvão.”

À medida que o projeto avança, a expectativa é que o armazenamento em baterias e o desenvolvimento de novas tecnologias tornem a rede mais resiliente, permitindo que a energia fotovoltaica e outras fontes limpas assumam o protagonismo absoluto na matriz elétrica chinesa, minimizando gradativamente o papel dos combustíveis fósseis.

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