A China está construindo uma gigantesca “Muralha Solar” no deserto de Kubuqi, unindo geração de energia fotovoltaica em larga escala e estratégias avançadas de combate à desertificação ambiental.
A transição energética global ganha um novo e audacioso capítulo com a iniciativa chinesa de transformar o deserto de Kubuqi, na Mongólia Interior, em um imenso polo de energia limpa. Com 400 km de extensão e 5 km de largura, este projeto de infraestrutura busca converter regiões áridas em uma fonte vital de eletricidade para grandes metrópoles, consolidando-se como uma das maiores instalações fotovoltaicas do planeta.
O empreendimento não se limita apenas à instalação de painéis solares; ele integra um esforço multifacetado de sustentabilidade. O objetivo é equilibrar a alta demanda energética do país — impulsionada pela eletrificação da frota e pelo crescimento de centros de dados — com o controle da degradação do solo, criando um modelo onde a tecnologia e a natureza operam em conjunto para garantir a segurança energética.
A engenharia por trás da Grande Muralha Solar
O projeto, que já conta com 27,3 gigawatts instalados, projeta atingir uma capacidade total de 60 gigawatts. Essa escala monumental é estratégica: o deserto oferece espaço vasto e alta incidência de luz solar, superando as limitações físicas dos centros urbanos. Ao posicionar a geração próxima às áreas de consumo, a China busca otimizar o transporte de energia através de linhas de transmissão, mitigando gargalos técnicos e custos operacionais típicos de projetos renováveis de longa distância.
Segundo Wang Zhaosheng, diretor do Departamento de Silvicultura e Pastagens da Mongólia Interior:
“Através do desenvolvimento integrado do controle da areia e fotovoltaico, alcançamos o ganha-ganha de aumentar o verde e a energia.”
Combate à desertificação e uso tridimensional do solo
Além do foco em sustentabilidade, a “Muralha Solar” serve como barreira contra o avanço das dunas que ameaçam cidades e a própria capital, Pequim. A estratégia da Administração Nacional de Florestas e Pastagens utiliza um conceito de ocupação tridimensional: painéis geram energia na parte superior, enquanto a sombra e a proteção proporcionada pelas estruturas favorecem a recuperação do solo e o cultivo de vegetação nativa no nível inferior.
Essa abordagem tem apresentado resultados concretos na recuperação ambiental da região. Dados indicam que a cobertura vegetal na área cresceu de 5% para cerca de 30%, demonstrando que parques solares bem planejados podem servir como catalisadores para a restauração de ecossistemas degradados e até mesmo para a criação de espaços dedicados à pastagem.
O equilíbrio entre renováveis e combustíveis fósseis
Embora o avanço da energia solar seja expressivo, o governo chinês mantém o uso do carvão como suporte para a estabilidade da rede. Especialistas como Gang He, da Faculdade Baruch, destacam que a Grande Muralha Solar é fundamental para aliviar a pressão em períodos de pico, reduzindo a dependência constante de fontes convencionais de emissão intensiva de carbono.
No entanto, o cenário ainda é de transição. Huang Zhiqiang, vice-presidente executivo da Mongólia Interior, ressalta a natureza intermitente das fontes renováveis:
“A fotovoltaica, que chamamos de intermitente, gera eletricidade quando há sol e não gera quando não há; ao meio-dia gera muito, à noite não gera. Por isso, por um lado impulsionamos a construção de armazenamento, mas, fundamentalmente, ainda não podemos prescindir do suporte da energia termelétrica a carvão.”
À medida que o projeto avança, a expectativa é que o armazenamento em baterias e o desenvolvimento de novas tecnologias tornem a rede mais resiliente, permitindo que a energia fotovoltaica e outras fontes limpas assumam o protagonismo absoluto na matriz elétrica chinesa, minimizando gradativamente o papel dos combustíveis fósseis.























