O otimismo inicial com as baterias no setor elétrico dá lugar a uma análise mais técnica e cautelosa, à medida que especialistas apontam limites estruturais para o equilíbrio da oferta e demanda.
O uso de sistemas de armazenamento por baterias deixou de ser visto como a solução definitiva para os frequentes cortes de energia no Brasil. Durante o Enase (Encontro Nacional de Agentes do Setor Elétrico), realizado recentemente no Rio de Janeiro, lideranças do setor moderaram as expectativas, indicando que essas tecnologias funcionam mais como um paliativo do que como uma resposta estrutural ao descasamento entre a geração renovável e o consumo.
Para a presidente da SPIC Brasil, Adriana Waltrick, embora os leilões de armazenamento sinalizem um avanço para o ajuste da demanda, o impacto é limitado. Ela argumenta que as baterias realizam apenas o deslocamento de carga, sem atacar a raiz da sobreoferta de energia no país, onde a necessidade de consumo continua aquém da capacidade instalada.
A visão do setor sobre os limites do armazenamento
A percepção de que o armazenamento não é uma “bala de prata” é compartilhada por outros executivos. Fabio Bortoluzo, responsável pela operação brasileira da Atlas Renewable Energy, pontuou que, se por um lado as BESS (sigla em inglês para sistemas de baterias) favorecem a viabilidade de novos empreendimentos de geração, por outro, elas não possuem a capacidade de criar demanda de forma autônoma.
O presidente da Eneva, Lino Cançado, acrescentou uma camada extra de complexidade ao debate ao alertar que a eficácia desses sistemas está intrinsecamente ligada à sua localização. Dependendo do ponto de conexão no Sistema Interligado Nacional (SIN), o ganho de eficiência pode ser praticamente nulo.
“O leilão de baterias é um sinal para a gente conseguir ajustar um pouco do problema da demanda, mas é importante saber que não resolvem o problema de base”, afirmou Adriana Waltrick.
Desafios na expansão do consumo e infraestrutura
Além do papel das baterias, a discussão avançou sobre o potencial dos data centers como novos polos de consumo. Contudo, há um ceticismo crescente quanto ao impacto real dessa demanda a curto prazo. Waltrick ponderou que existe um entusiasmo excessivo, ou um “hype”, sobre o setor, visto que as projeções da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) indicam um déficit significativo de 4 GW até 2030, que a instalação desses centros isoladamente não supriria.
O presidente da ISA Energia, Rui Chammas, reforçou que o gargalo vai além do consumo. Para ele, o maior entrave é a falta de infraestrutura física, como transformadores e novas linhas de transmissão, cujo prazo de instalação chega a 36 meses. Sem esse investimento, o Brasil não conseguirá atender à demanda imediata que investidores buscam.
O cenário aponta, portanto, para a necessidade de políticas públicas mais assertivas. A construção de demanda, segundo os especialistas, passa pela atração de indústrias de base e pelo desenvolvimento do mercado de hidrogênio verde. Enquanto isso, o ONS trabalha para definir até o final de setembro os limites técnicos e locacionais, buscando otimizar a inserção das baterias na rede antes que o desequilíbrio entre a oferta renovável e a demanda real se agrave ainda mais.























