Com 90% de chance de um El Niño intenso no segundo semestre de 2026, o Brasil tem uma janela de seis meses para implementar ações preventivas, evitando os altos custos econômicos e sociais da inação já observados em eventos anteriores.
A comunidade científica global está em alerta máximo. A Agência Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou o monitoramento intensificado do Pacífico equatorial, elevando o status para “alerta de El Niño“. Projeções dos principais modelos meteorológicos, tanto norte-americanos quanto europeus, indicam uma probabilidade superior a 90% de o fenômeno se estabelecer no segundo semestre de 2026, com potencial para atingir intensidade muito forte entre novembro e janeiro. Essa previsão coloca o Brasil, um dos países mais suscetíveis aos impactos do El Niño, diante de uma janela crucial de aproximadamente seis meses para se preparar.
A urgência dessa preparação é sublinhada pelas experiências recentes e seus custos exorbitantes. As inundações que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo, resultaram em perdas estimadas em R$ 88,9 bilhões, com o governo federal destinando mais de R$ 46 bilhões apenas para a resposta emergencial. O El Niño de 2023, por sua vez, causou prejuízos de mais de US$ 10 bilhões na bacia do Prata, impactando diretamente a inflação de alimentos. Diante de um novo cenário iminente, a questão não é a falta de dados, mas sim a conversão dessas informações em ações efetivas e coordenadas.
O Gargalo entre Ciência e Ação
O Brasil dispõe de instituições de excelência em monitoramento climático, como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Essas agências geram dados e alertas de padrão internacional. O desafio, no entanto, reside na transição da informação técnica para a tomada de decisão administrativa. Historicamente, a reação prevalece sobre a prevenção.
Observa-se um padrão reativo em diversas esferas: o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ajusta a geração apenas quando os reservatórios já estão baixos; a Agência Nacional de Águas (ANA) restringe outorgas tardiamente; e a Defesa Civil atua na emergência após a ocorrência do desastre. Apesar da existência de um Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, falta uma coordenação eficaz que antecipe os riscos desde o estágio de alerta, levando o país a arcar com os custos repetidamente.
Impactos Setoriais: Eletricidade, Agricultura e Infraestrutura
Um El Niño de forte intensidade gera efeitos assimétricos e prejudiciais em múltiplos setores. No setor elétrico, o fenômeno provoca uma redução significativa nas afluências das bacias do Sudeste e Centro-Oeste, exigindo o acionamento de termelétricas, elevando o custo da energia e, consequentemente, as bandeiras tarifárias. Isso pressiona o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), com repercussões diretas nos custos industriais e na inflação, especialmente com o subsistema Sul oferecendo pouca margem de compensação.
Na agricultura, os impactos são variados. O Centro-Oeste enfrenta riscos de comprometimento da estação chuvosa para a safra de verão, enquanto o Sul pode sofrer com excesso de chuvas sobre cereais de inverno. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta que o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural opera com um orçamento muito abaixo do necessário. Essa subcobertura transfere o risco para o produtor, aumentando a inadimplência e, no final, o custo para o Tesouro Nacional.
Para a infraestrutura e logística, os custos reativos são os mais elevados e complexos de serem recuperados. As inundações de 2024 no Rio Grande do Sul causaram danos a dez pontes e mais de 8 mil quilômetros de estradas, com um custo de R$ 2,8 bilhões apenas na recuperação viária estadual e R$ 7 bilhões em perdas totais de infraestrutura. Um novo El Niño forte incidiria sobre uma rede ainda em reparo, ampliando o risco de interrupção em corredores de escoamento de safra e comprometendo a economia.
Saneamento Básico e a Busca por Modelos de Prevenção
O setor de saneamento básico enfrenta um duplo desafio. Períodos prolongados de estiagem, comuns no Norte e Nordeste durante o El Niño, podem acionar cláusulas de reequilíbrio econômico-financeiro em contratos firmados sob o Marco Legal do Saneamento (Lei 14.026/2020). Isso transfere para o poder público custos que as concessionárias não precificaram para cenários de baixa hídrica, afetando diretamente comunidades vulneráveis com risco de racionamento e o descumprimento de metas.
A experiência internacional demonstra que a prevenção é viável e eficaz. A Colômbia, por exemplo, formalizou um plano setorial com medidas pré-estabelecidas para cada nível de alerta. A Austrália utiliza as previsões sazonais como insumo normativo para outorgas de água e calendário agrícola. A FAO, por sua vez, liberou recursos automaticamente em diversos países com base em índices predefinidos. Nesses casos, a previsão climática funciona como um gatilho institucional, não apenas como um dado acessível.
O Brasil já possui o arcabouço legal necessário, com as Leis 12.608/2012 e 9.433/97, e as competências do ONS, da ANA e do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), que permitem a ativação de medidas coordenadas antes da consolidação do evento. Ajustes podem ser feitos dentro da legislação existente, como a criação de um protocolo que converta alertas científicos em obrigações administrativas com prazos e responsáveis definidos. Um fundo de ação antecipada com dotação prévia, distinto do caráter reativo do FUNPDR, e uma instância coordenadora com autoridade sobre os órgãos setoriais, sem necessidade de reforma estrutural, seriam passos importantes.
A reconstrução do Rio Grande do Sul consumiu mais de R$ 46 bilhões. Reforçar sistemas de alerta, contenção e logística em bacias críticas custaria uma fração desse valor. A decisão do governo nos próximos seis meses não impedirá o El Niño, mas determinará se o Brasil continuará pagando a mesma e alta conta, ou se finalmente adotará uma postura proativa diante das inevitáveis mudanças climáticas.























