O “curtailment” no Brasil, com cortes na geração de energia eólica e solar pelo ONS, eleva o risco e reduz o valor de investimentos em renováveis, impactando empresas e consumidores.
A percepção de risco para investimentos em energias renováveis no Brasil está passando por uma transformação significativa. A prática do “curtailment” – cortes na geração de energia eólica e solar determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) – tem gerado preocupação crescente entre os investidores, afetando diretamente o valor de mercado das empresas do setor e sua capacidade de captar recursos essenciais para novos projetos.
Este cenário foi destacado por Anderson Brito, chefe de banco de investimento do UBS BB, em entrevista à CNN. Ele ressaltou que o mercado agora incorpora ativamente esse novo risco na precificação dos ativos de geração, especialmente nos segmentos de energia dos ventos e energia solar fotovoltaica. A mudança de perspectiva sinaliza um desafio importante para a expansão da matriz energética limpa no país.
O Impacto do Risco Operacional nos Investimentos
Embora os riscos de construção de novos empreendimentos de energia renovável ainda existam, a atenção dos investidores se voltou para o desempenho operacional dos ativos. Fatores como o ambiente de contratação de energia, o risco de despacho (determinação do ONS sobre o quanto uma usina pode gerar) e o volume efetivamente comercializado são agora os principais pontos de análise. Essa nova abordagem tem levado a um aumento na taxa de desconto aplicada a projetos de energia solar e eólica, em contraste com as hidrelétricas, consideradas mais estáveis.
A elevação da taxa de desconto é uma notícia desfavorável para o setor, pois ela reduz o valor presente dos fluxos de caixa futuros dos projetos, diminuindo a avaliação das empresas e complicando a obtenção de financiamentos ou a atração de novos aportes. O “curtailment” tem se tornado mais frequente nos últimos anos, exacerbando essa problemática. Os cortes acontecem para garantir a segurança e a estabilidade do sistema elétrico nacional, mas resultam em perda de receita para os geradores, que defendem a necessidade de compensações financeiras.
Consequências Financeiras e a Busca por Soluções
Embora o setor ainda não registre casos de insolvência diretamente atribuíveis ao “curtailment”, diversas empresas já enfrentam dificuldades financeiras. A redução inesperada de receitas e o descumprimento de cláusulas contratuais (covenants) são realidades para muitos. Os prejuízos acumulados decorrentes dessa prática já ultrapassam os R$ 4 bilhões, evidenciando a urgência de uma solução.
As empresas agora aguardam um posicionamento do governo federal. A expectativa é de que um termo de compromisso seja estabelecido, delineando mecanismos claros de ressarcimento pelas perdas sofridas. Se essa compensação for implementada, o custo tende a ser repassado aos consumidores de energia. Isso ocorreria por meio do Encargo de Serviços do Sistema (ESS), um mecanismo já existente que cobre custos operacionais do sistema elétrico e que é incluído nas tarifas.
Futuro da Energia Renovável e Estabilidade do Setor
O impacto do “curtailment” no setor de energias renováveis no Brasil é um divisor de águas. Ele não apenas redefine o perfil de risco para investidores, mas também levanta questões cruciais sobre a sustentabilidade financeira de projetos que são vitais para a transição energética e a descarbonização do país. A busca por um equilíbrio entre a segurança operacional do sistema e a previsibilidade de receita para os geradores de energia limpa é fundamental para garantir a continuidade do desenvolvimento de uma matriz energética sustentável e competitiva no mercado de energia brasileiro.





















