O setor elétrico brasileiro entra em uma nova era com o código aberto de seu modelo computacional de precificação, visando substituir o NEWAVE e o DECOMP até 2028.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) iniciaram uma transformação histórica na infraestrutura digital que sustenta o mercado de energia no Brasil. Ao disponibilizar o código-fonte de seu novo modelo de planejamento e operação em um repositório público no GitHub, as instituições encerram décadas de opacidade tecnológica e abrem as portas para uma governança colaborativa.
A iniciativa visa criar um sistema mais transparente e adaptado à complexidade da matriz energética atual, cada vez mais composta por fontes renováveis variáveis. A meta das entidades é que a ferramenta assuma o protagonismo na formação do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) a partir de janeiro de 2028, marcando o fim do ciclo dos modelos tradicionais NEWAVE e DECOMP.
Arquitetura aberta e cronograma de transição
A construção desta plataforma segue rigorosamente os parâmetros da Consulta Externa nº 5/2026, que exige maior rastreabilidade, segurança cibernética e versionamento de rotinas. Diferente dos sistemas legados, o novo software foi projetado com uma estrutura modular, permitindo que funcionalidades avançadas — como a integração de sistemas de armazenamento por baterias e serviços ancilares — sejam incorporadas de maneira gradual por meio de novas atualizações.
Para assegurar a confiabilidade do sistema, o cronograma estabeleceu um “período sombra” de 24 meses. Durante os anos de 2026 e 2027, o novo modelo rodará simultaneamente aos sistemas atuais. Esse processo permitirá ajustes finos e a calibração de parâmetros de aversão ao risco, sendo que, caso a maturidade técnica exija, a migração definitiva poderá ser postergada para janeiro de 2029.
“A abertura do código e a titularidade compartilhada estruturam um ambiente no qual o mercado atua diretamente na evolução da ferramenta, mantendo a previsibilidade e a segurança na formação de preços como pilares inegociáveis.”
Impacto na governança do setor
A liderança das três entidades reforça que a mudança é essencial para lidar com a rápida transformação do SIN (Sistema Interligado Nacional). Ao envolver consultorias, academia e agentes de mercado no processo de validação, o projeto busca mitigar riscos de volatilidade e garantir que a nova inteligência computacional retrate fielmente a física do sistema elétrico.
O diretor-geral do ONS, Marcio Rea, ressaltou que a evolução é indispensável para o setor, exigindo rigor técnico absoluto. Por sua vez, Reinaldo da Cruz Garcia, da EPE, destacou que o projeto está alinhado às diretrizes da Resolução CNPE nº 1/2024, posicionando o Brasil na vanguarda da gestão energética através de ferramentas que refletem a dinâmica e a crescente variabilidade de uma rede elétrica moderna e sustentável.















