Uma nova coleção internacional investiga os impactos do extrativismo na transição energética e digital, analisando o papel do lítio, da inteligência artificial e dos data centers nas desigualdades globais.
A aceleração global rumo a fontes de energia limpa e à digitalização generalizada tem exigido uma quantidade sem precedentes de minerais, água e terras raras.
No entanto, por trás da promessa de sustentabilidade, surge uma questão urgente sobre quem realmente arca com os custos dessa transformação ecológica e tecnológica.
Para aprofundar esse debate, a nova coleção internacional Empire of Extraction: Capital, Crisis, and Struggles for Climate Justice reúne estudos de caso da América Latina, Europa, África, Ásia e Estados Unidos.
A obra investiga as novas fronteiras do extrativismo impulsionado por tecnologias modernas.
Publicada pela Fundação Rosa Luxemburgo – Brasil e Paraguai, em parceria com a Editora Funilaria, a pesquisa está dividida em quatro volumes.
O material aborda desde a mineração de insumos críticos até a instalação de data centers, escancarando as tensões entre o desenvolvimento tecnológico e a justiça climática.
Os custos ocultos da transição energética
O avanço da inteligência artificial e das redes de comunicação global depende de uma infraestrutura física massiva que consome recursos naturais em ritmo acelerado.
Os estudos mostram que a corrida tecnológica atual reproduz velhas lógicas de exploração sob novas formas de acumulação de capital.
No centro dessa discussão estão minerais essenciais para a eletrificação, como o lítio.
A exploração intensiva desse recurso em regiões como o Vale do Jequitinhonha, no Brasil, e em áreas da Argentina, exemplifica como os territórios do Sul Global sofrem os impactos diretos para abastecer mercados estrangeiros.
A materialidade da nuvem e a pressão sobre os recursos
Infraestrutura digital e data centers
A ilusão de que a tecnologia digital é invisível e sustentável cai por terra quando se analisa a base material da chamada nuvem.
Operações de data centers e a mineração de criptomoedas demandam volumes colossais de eletricidade e água, pressionando as redes elétricas locais e gerando novos conflitos socioambientais.
Elisangela Soldateli Paim afirmou:
A justiça ambiental exige olhar para a transição para além da descarbonização. É preciso discutir quem controla seus meios, quem se apropria dos ganhos e quem paga os custos sociais e ecológicos desse processo.
A avaliação é de Elisangela Soldateli Paim, coordenadora do Programa Latino-Americano de Clima e Energia da Fundação Rosa Luxemburgo.
Para a especialista, o foco não deve se restringir à redução de emissões, mas abranger toda a cadeia de controle dos recursos.
O futuro da sustentabilidade e o poder das comunidades
Mais do que apontar os danos causados pelo modelo atual, a publicação coloca as resistências locais no centro da análise.
Os conflitos em torno de minas, centros de dados e mecanismos de financiamento revelam que as comunidades afetadas produzem conhecimentos fundamentais sobre os rumos da economia verde.
À medida que o mundo avança na busca por alternativas aos combustíveis fósseis, torna-se imperativo repensar as estruturas de poder que moldam a economia de baixo carbono.
Garantir uma verdadeira transição energética exige que a justiça social e a soberania dos territórios estejam no centro das próximas decisões globais.















