Licoes das canetas emagrecedoras para reformar o setor eletrico brasileiro

Fernanda Delgado é diretora Executiva da ABIHV (Foto Divulgação)
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Inovações terapêuticas inspiram o setor elétrico a repensar sua estrutura complexa para reduzir custos e otimizar a geração limpa.

Uma nova perspectiva para o setor elétrico brasileiro surge de um campo inesperado: a medicina.

Medicamentos desenvolvidos para tratar condições metabólicas específicas, como a obesidade e o diabetes, têm demonstrado resultados multifacetados, atuando sobre mecanismos fisiológicos que geram diversos benefícios.

Essa abordagem multipropósito, que trata as causas subjacentes de um problema complexo em vez de seus sintomas isolados, oferece um modelo promissor para reorganizar a estrutura do setor elétrico.

O avanço das pesquisas em fármacos como a semaglutida exemplifica essa evolução.

Inicialmente focados no controle glicêmico, esses medicamentos agora são reconhecidos por seu impacto na redução de peso e até mesmo na diminuição do risco de eventos cardiovasculares graves.

Essa capacidade de gerar múltiplos benefícios a partir de uma intervenção direcionada é exatamente o que o setor elétrico nacional precisa para lidar com suas próprias complexidades estruturais.

O Paradoxo da Abundância Energética

O Setor Elétrico Brasileiro (SEB), apesar de possuir vasta riqueza em recursos energéticos e uma infraestrutura consolidada, enfrenta o paradoxo de apresentar custos elevados.

Essa situação é agravada por décadas de acúmulo de regulações, encargos, subsídios e contratos, muitos dos quais, embora justificáveis em sua origem, hoje tornam o sistema difícil de gerenciar e explicar.

O resultado é que a abundância de energia, que deveria ser uma vantagem comparativa, contribui para o chamado Custo Brasil.

A contradição se acentua ao observar a coexistência de uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo com volumes crescentes de geração renovável sendo desperdiçados.

Esse fenômeno, conhecido como curtailment, representa a impossibilidade de aproveitar a energia gerada por fontes como sol e vento, devido a limitações na transmissão, distribuição ou demanda.

Estimativas apontam que custos indevidos ou ineficientes nas tarifas elétricas podem somar mais de R$ 100 bilhões anualmente.

Uma Terapia Sistêmica para o Setor Elétrico

A analogia com as novas terapias metabólicas sugere que o setor elétrico não precisa de soluções pontuais para cada sintoma.

A necessidade é de uma arquitetura capaz de tratar simultaneamente várias de suas disfunções.

Isso envolve a reorganização econômica da abundância energética, com a revisão de encargos e subsídios, a gestão da demanda e o combate ao curtailment.

Encargos e subsídios, quando bem definidos e monitorados, são ferramentas legítimas de política pública.

Contudo, sua eternização, desvinculação de propósitos originais ou repasse indiscriminado de custos para o consumidor podem gerar ineficiências.

Uma revisão desses mecanismos deve verificar quem se beneficia, por quanto tempo, e se o instrumento de financiamento ainda é o mais adequado.

Incentivando a Flexibilidade e a Demanda Inteligente

Uma segunda frente de ação reside na gestão da demanda.

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Em vez de encarar o consumidor como um agente passivo, o SEB pode incentivar a flexibilidade.

Grandes consumidores poderiam modular seu consumo em resposta às condições do sistema, deslocando atividades para horários de maior disponibilidade de energia.

Isso não só reduziria o desperdício de geração renovável, mas também traria maior flexibilidade ao sistema.

A capacidade de resposta da demanda, especialmente de grandes consumidores, ao ser reconhecida e remunerada por mecanismos adequados, pode gerar valor sistêmico.

Isso inclui a prestação de serviços ancilares, contribuindo para o equilíbrio entre oferta e demanda.

Combate ao Curtailment e Oportunidades Industriais

O curtailment é um sintoma claro da insuficiente coordenação entre expansão da oferta, redes e demanda.

A solução passa por investimentos em transmissão e armazenamento, sinais econômicos mais precisos sobre tempo e localidade de consumo, e a incorporação de novas cargas flexíveis.

Nesse contexto, o impulso pela reindustrialização do Brasil oferece uma oportunidade estratégica.

Atividades eletrointensivas de baixo carbono, como a produção de hidrogênio verde, amônia, metanol e fertilizantes, além de data centers, podem absorver excedentes de energia renovável.

Se bem localizadas e contratadas, essas indústrias podem operar de forma flexível, ajustando seu consumo à disponibilidade energética e ajudando a mitigar restrições à geração.

Uma Abordagem Integrada para o Futuro Energético

As ações propostas – reorganização de custos, aprimoramento dos sinais econômicos, remuneração da flexibilidade e criação de cargas flexíveis – não são medidas isoladas, mas sim componentes de uma terapia sistêmica.

Essa abordagem multipropósito, inspirada nos avanços médicos, visa atuar de forma coordenada sobre mecanismos estruturais para gerar benefícios simultâneos.

O Brasil possui recursos energéticos abundantes e limpos, mas a mera disponibilidade não tem se traduzido automaticamente em investimento e competitividade.

A transição energética global e as tensões geopolíticas criam um cenário de oportunidades para tecnologias de baixo carbono.

Transformar esse potencial em eletricidade competitiva, nova indústria e desenvolvimento depende, fundamentalmente, da redução do custo da energia.

A revolução necessária para o SEB não virá de uma solução única, mas de uma sofisticada combinação de mecanismos que ataquem simultaneamente custos, desperdícios, inflexibilidades e distorções.

Assim como uma inovação médica pode gerar benefícios muito mais amplos do que o inicialmente previsto, o setor elétrico brasileiro pode encontrar sua própria caneta emagrecedora ao adotar uma visão integrada e multipropósito.

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