O avanço da Inteligência Artificial deslocou o foco dos investimentos globais: o capital, antes concentrado em softwares, agora disputa ativos estratégicos de infraestrutura e energia, movimentando bilhões.
O mercado global de fusões e aquisições (M&A) vive uma transformação profunda. Se o passado recente foi dominado pela valorização de aplicativos e plataformas digitais, o cenário atual é regido pela corrida aos “alicerces” da IA. Data centers, sistemas de transmissão elétrica e soluções de eficiência energética tornaram-se os ativos mais cobiçados por fundos e grandes grupos econômicos.
Esta mudança é uma resposta pragmática à demanda vorácia da tecnologia. Processar e armazenar dados em larga escala exige uma capacidade computacional e um fornecimento ininterrupto de energia que superam as infraestruturas convencionais. Em 2025, essa urgência operacional resultou em um volume recorde de investimentos, consolidando a infraestrutura digital como a nova fronteira da rentabilidade.
A nova corrida do ouro tecnológico
Para especialistas, o mercado replica uma dinâmica histórica. Jefferson Nesello, sócio-diretor da Zaxo M&A Partners, compara o momento atual aos grandes ciclos econômicos do século XIX.
“A lógica é semelhante à corrida do ouro: nem sempre quem enriqueceu foi quem procurou o metal precioso. Muitas vezes, foram os fornecedores de ferramentas e infraestrutura para a exploração.”
Sob essa ótica, o interesse não se limita apenas aos grandes centros de processamento. Fabricantes de componentes elétricos, sistemas de refrigeração, soluções de automação e segurança física ganharam relevância nas teses de investimento. Segundo dados da S&P Global Market Intelligence, o setor de data centers atingiu o marco histórico de 69 bilhões de dólares em transações de M&A no ano de 2025, totalizando 113 operações concluídas.
Brasil e a vantagem da matriz renovável
O impacto dessa tendência também é sentido no Brasil. O país movimentou cerca de 6,7 bilhões de dólares em infraestrutura digital em 2025, consolidando-se como o hub mais importante da América Latina. O diferencial brasileiro, contudo, vai além da localização geográfica.
A matriz energética, majoritariamente composta por fontes renováveis, coloca o Brasil em posição de vantagem competitiva para atrair investimentos de hyperscalers globais. A disponibilidade de energia limpa é hoje um fator decisivo para empresas que buscam expandir suas operações sob critérios de sustentabilidade.
O desafio da energia
A projeção da Agência Internacional de Energia (IEA) é clara: o consumo elétrico dos data centers deve ultrapassar a marca de 1.000 TWh até 2030, dobrando os níveis observados em 2024. Este crescimento coloca o setor elétrico no centro das negociações de mercado.
Como ressalta Leonardo Grisotto, sócio da Zaxo, a pergunta fundamental do mercado mudou. “Para investidores, a questão não é mais quem desenvolverá a próxima IA, mas quem controlará a infraestrutura necessária para alimentá-la.”
À medida que a demanda por capacidade computacional escala, a infraestrutura elétrica — da geração à distribuição — deixa de ser apenas um insumo e passa a ser o ativo estratégico que ditará a competitividade global nos próximos anos. A tendência é que a disputa por ativos que garantam segurança operacional e fornecimento de energia continue sendo o principal motor do setor de M&A.























