O avanço do combustível sustentável de aviação (SAF) falha em acompanhar as metas climáticas globais, levando a Iata a denunciar falhas regulatórias que encarecem o setor sem promover a oferta.
A meta de alcançar emissões líquidas zero no setor aéreo até 2050 está sob ameaça severa. Durante a 82ª Assembleia Geral da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), realizada neste domingo (7) no Rio de Janeiro, a entidade expôs o abismo entre o planejamento climático e a realidade industrial. Com apenas 0,8% do consumo global de combustível vindo do SAF em 2026, a produção de 2,4 milhões de toneladas está longe das 500 milhões de toneladas anuais exigidas pelo compromisso ambiental.
O diretor-geral da Iata, Willie Walsh, foi incisivo ao apontar que o problema reside na inversão de prioridades governamentais. Segundo a entidade, diversos países estabeleceram obrigatoriedades de mistura de biocombustíveis sem antes fomentar uma infraestrutura de produção robusta. O resultado foi um aumento imediato nos custos operacionais das companhias aéreas, sem o devido reflexo na disponibilidade do produto no mercado.
Conflitos regulatórios e distorções de mercado
Além dos desafios produtivos, a organização criticou duramente a postura da União Europeia. De acordo com o diagnóstico apresentado, as novas diretrizes do bloco europeu ameaçam a integridade do Corsia, o programa global de compensação de carbono da aviação, priorizando o seu sistema próprio, o EU ETS. Para Walsh, essa movimentação política enfraquece a união em prol da descarbonização global.
Outro ponto de tensão é o modelo de precificação. A Iata ressalta que o SAF tem sido negociado como se estivesse atrelado à volatilidade do querosene fóssil, uma lógica considerada distorcida, já que as matérias-primas e os custos de fabricação dos dois produtos não possuem correlação direta.
O papel estratégico do Brasil
Em meio ao cenário de incertezas, o Brasil foi apontado como um dos protagonistas mais promissores para a virada energética do setor. A disponibilidade de biomassa — proveniente do etanol, óleos vegetais e resíduos — posiciona o país como um fornecedor capaz de suprir uma parcela significativa da demanda mundial.
Apesar do otimismo, a associação faz um alerta importante para o governo brasileiro: o potencial do país corre o risco de ser desperdiçado se não houver um alinhamento estratégico nas políticas de financiamento e infraestrutura. Para que o Brasil se consolide como uma potência na transição energética, a Iata defende que o incentivo à criação de capacidade produtiva deve preceder qualquer imposição rigorosa de metas de consumo, evitando os erros observados no mercado europeu.






















