A Energisa suspendeu novas autorizações para projetos de minigeração distribuída em regiões com redes saturadas, visando conter o estresse elétrico causado pelo fluxo reverso de energia.
A expansão da Geração Distribuída (GD) no Brasil chegou a um ponto de inflexão crítico. Durante o evento Aquecimento MinutoMega Talks, realizado no Rio de Janeiro, o vice‑presidente de Regulação e Relações Institucionais da Energisa, Fernando Maia, anunciou que a companhia interrompeu a aprovação de novas usinas de minigeração em áreas onde a infraestrutura local atingiu o limite de sua capacidade operacional.
A decisão, segundo a empresa, não afeta contratos ou projetos já validados, mantendo a segurança jurídica do setor. O foco da medida é evitar o agravamento das restrições técnicas em locais onde a rede de distribuição enfrenta dificuldades severas para absorver o fluxo reverso — fenômeno que ocorre quando a energia produzida pelos consumidores retorna para a rede de alta tensão, sobrecarregando o sistema.
Desafios técnicos no Mato Grosso, Acre e Rondônia
O esgotamento da capacidade elétrica é mais evidente em estados como Mato Grosso, Acre e Rondônia. Nessas regiões, a infraestrutura atual não consegue comportar a crescente carga injetada pela geração renovável descentralizada. Embora a proibição atual esteja focada na minigeração, o setor ainda observa um avanço constante da microgeração, como os painéis fotovoltaicos residenciais, que crescem a uma média de 60 MW mensais nas concessões da empresa.
“Quando você está no buraco, o primeiro cuidado é parar de cavar”, pontuou Maia ao justificar a necessidade da medida restritiva diante do desafio de manter a estabilidade do fornecimento.
O executivo ressaltou que o problema transcende a gestão local, aludindo à “curva do pato” — um fenômeno sistêmico onde a oferta de energia solar atinge o pico durante o dia, mas cai drasticamente no fim da tarde, exigindo uma resposta rápida e custosa das fontes convencionais para suprir a demanda noturna.
O futuro da gestão da rede elétrica
Para evitar um colapso gradual, a Energisa defende uma atuação conjunta com a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e o Operador Nacional do Sistema (ONS). O objetivo é implementar medidas estruturais e mais assertivas, tratando o problema na raiz, em vez de depender apenas de expansões lentas na rede básica.
A visão da companhia é que as distribuidoras devem evoluir para um papel de gestoras locais, operando de forma similar a um DSO (Distribution System Operator). Isso permitiria uma maior observabilidade e controle da rede, integrando tecnologias como sistemas de armazenamento em baterias e cargas flexíveis. Segundo a Energisa, essa transição exige um novo marco regulatório e investimentos pesados em digitalização, posicionando as distribuidoras como os “maestros auxiliares” do ONS, essenciais para gerenciar a energia que flui “de baixo para cima”.























