O setor corporativo enfrenta um desafio crítico com a alta de 32% nos encargos de energia. A volatilidade do PLD e o aumento da CDE exigem uma mudança urgente na gestão estratégica de custos para garantir a competitividade das indústrias.
Em um cenário econômico marcado por juros elevados e margens apertadas, a gestão de energia no Brasil atravessa uma transformação estrutural. O que antes era tratado apenas como uma despesa operacional fixa tornou-se um risco financeiro estratégico. Segundo Philipe Kilzer, diretor de operações estruturadas do Grupo Bolt, as empresas precisam evoluir sua visão e passar a gerenciar a energia com o rigor aplicado a outras variáveis financeiras complexas.
Para setores intensivos em consumo, como a indústria química, mineração, alimentos e celulose, a eletricidade não é um detalhe: ela pode representar de 8% a 25% da receita líquida. Em companhias com margens EBITDA restritas, a falta de previsibilidade nos preços pode comprometer os resultados operacionais em pouquíssimo tempo.
O peso da volatilidade e dos encargos
A dimensão deste risco ficou nítida com o comportamento recente do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). Em 2024, o indicador disparou de aproximadamente R$ 61/MWh para patamares superiores a R$ 280/MWh. Para uma indústria com consumo médio de 10 MWm, essa exposição desprotegida pode resultar em um impacto financeiro adicional de R$ 1,6 milhão por mês.
Além da instabilidade do mercado de energia, os custos regulatórios pressionam o caixa. A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), principal encargo do setor, atingiu R$ 49,2 bilhões em 2025 — um salto de 32% na comparação anual, onerando substancialmente o consumidor final.
“O contraste no ambiente corporativo ainda é evidente. Empresas que monitoram de forma rigorosa sua exposição cambial, hedge de commodities e estrutura de dívida, muitas vezes deixam o custo energético fora da lógica financeira de gestão de risco”, afirma Philipe Kilzer.
Lições globais e o cenário nacional
A vulnerabilidade energética não é apenas uma teoria. A crise europeia de 2022, quando a disparada do gás natural forçou indústrias de base a paralisarem suas atividades, serviu de alerta global. Na ocasião, companhias blindadas por contratos de longo prazo de energia renovável conseguiram preservar suas margens, tornando o tema pauta obrigatória em conselhos de administração e tesourarias ao redor do mundo.
No Brasil, o Mercado Livre de Energia já atende mais de 85 mil consumidores. Contudo, a maturidade financeira ainda é um desafio. Muitas empresas migraram de ambiente focadas apenas em descontos imediatos, negligenciando a proteção de longo prazo contra a volatilidade do setor elétrico.
Novas camadas de risco e o futuro
O debate ganha fôlego com a abertura gradual do mercado para a baixa tensão e o avanço das fontes renováveis intermitentes. Fenômenos como o *curtailment* — cortes na geração por gargalos na rede — introduzem novas variáveis de risco de contraparte. Para as empresas, a sobrevivência dependerá de tratar os contratos de energia e a autoprodução como instrumentos de *hedge*.
A tendência é que a gestão energética se torne cada vez mais sofisticada. Conforme pontua Philipe Kilzer, a pergunta estratégica para os conselhos não é mais sobre o custo pontual da conta de luz, mas sobre o tamanho da exposição ao risco e o impacto real disso na geração de caixa a longo prazo, em um mercado de sustentabilidade cada vez mais exigente.























