Grupo Pontal-Thopen solicita recuperação judicial com dívida expressiva, em meio a controvérsias com antigos sócios e desafios operacionais.
O cenário do setor de energia limpa no Brasil ganha contornos complexos com o pedido de recuperação judicial do Grupo Pontal-Thopen, que protocolou na Justiça do Rio de Janeiro um passivo estimado em R$ 4,56 bilhões. A solicitação, feita em 7 de agosto, surge em meio a uma acirrada disputa societária com os antigos controladores da RZK Energia, agora acionistas minoritários, que contestam a medida.
O ponto central da divergência reside na aquisição da RZK Energia pela Pontal em março de 2025, que deu origem à Thopen. Os antigos sócios, que detêm 32,432% do capital votante da Thopen Energia e da Thopen Soluções através de fundos ligados à RZK Energia e à Nova Milano, argumentam que o pedido de recuperação judicial não seguiu os trâmites societários.
Eles alegam ter poder de veto sobre tal decisão, conforme acordos de acionistas, e que a ação da atual controladora, Pontal 2 – sob comando final da Denham Capital –, é uma tentativa de pressioná-los na arbitragem que a Pontal moveu, cobrando perdas estimadas em R$ 300 milhões.
Uma Dívida em Discussão
A cifra de R$ 4,56 bilhões, apresentada como passivo, não representa integralmente débitos com credores externos. Cerca de R$ 2,27 bilhões são créditos intercompany, ou seja, obrigações entre as próprias empresas do grupo. Os R$ 2,29 bilhões restantes correspondem a créditos com direito a voto na recuperação judicial, majoritariamente quirografários.
No entanto, a extensão do endividamento efetivamente sujeito à recuperação judicial é um ponto de intenso debate. Os minoritários sustentam que aproximadamente 90% do passivo financeiro do grupo é extraconcursal, composto por créditos protegidos por garantias fiduciárias. Se reconhecido, isso limitaria drasticamente o alcance da recuperação sobre as dívidas principais.
Controvérsias e Desafios Operacionais
A raiz da crise, segundo a administração da Pontal, são inconsistências em informações prestadas pelos antigos gestores da RZK Energia durante a aquisição. A atual controladora alega ter encontrado fragilidades financeiras, atrasos em projetos e problemas de liquidez que consumiram parte significativa de um aporte inicial.
Paralelamente à disputa societária, o grupo enfrenta desafios operacionais. O pedido de recuperação judicial aponta para o descompasso entre a entrada em operação de projetos e o pagamento de financiamentos, o aumento do custo da dívida e atrasos na conexão de usinas às redes de distribuição. Esses fatores, combinados, teriam gerado um déficit de capital de giro.
A situação se agravou com uma dívida de R$ 183,99 milhões com a XP Investimentos e o Fundo Scorpio, cujo vencimento original era 30 de junho. Um acordo de standstill adiou a exigibilidade, mas a falta de caixa e a impossibilidade de fechar acordos semelhantes com outros credores precipitaram a busca por proteção judicial.
O Caminho da Recuperação
Enquanto o pedido de recuperação judicial aguarda deferimento, uma tutela cautelar concedida em julho mantém suspensas ações de cobrança por 60 dias. A juíza responsável pelo caso, Simone Gastesi Chevrand, solicitou manifestação do Ministério Público e das partes sobre os questionamentos levantados pelos minoritários e por fundos geridos pela Kinea, que detêm debêntures das Thopen Solar e também questionam a inclusão de créditos extraconcursais no processo.
A magistrada também determinou o fim do sigilo de justiça sobre os autos, após identificar dificuldades de acesso e tumulto processual.
Vale notar que as empresas do grupo responsáveis pela comercialização de energia não foram incluídas no pedido de recuperação, pois não possuem obrigações vencidas e inadimplidas, e continuarão operando com recursos próprios. A Thopen, que em março de 2025 planejava investir mais de R$ 2,3 bilhões até 2027 para expandir sua atuação, soma atualmente 700 MWp de capacidade instalada e cerca de 300 mil unidades consumidoras sob gestão. A recuperação judicial, se aceita, definirá o futuro da reestruturação deste importante player no mercado de energia limpa.






















