Investimentos em energia renovável no Brasil devem ficar paralisados por até três anos, projeta EDP. A conjuntura de sobreoferta e cortes de geração desestimula novos projetos de energia limpa.
A EDP, um dos grandes players do setor elétrico, acende um alerta para o futuro da energia renovável no Brasil. João Brito Martins, CEO da companhia na América do Sul, revelou em entrevista que o país deve enfrentar um período de estagnação nos investimentos em novas usinas limpas, com a paralisação podendo se estender por até três anos. Essa projeção lança uma sombra sobre o avanço da matriz energética sustentável nacional.
O diagnóstico aponta para um cenário complexo, marcado por uma sobreoferta de energia, grande volatilidade nos preços e frequentes cortes de geração impostos pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), fenômeno conhecido como “curtailment”. Esses fatores, combinados, minam a viabilidade econômica e a atratividade para a entrada de novos projetos no mercado brasileiro de energia verde.
Cenário Desafiador para Energias Limpas no Brasil
A análise de João Brito Martins detalha a realidade desfavorável para o desenvolvimento de novas iniciativas no segmento de fontes renováveis. A abundância de energia no mercado, embora pareça positiva, leva à queda dos preços, impactando diretamente a rentabilidade dos projetos. Os cortes de geração, por sua vez, introduzem uma incerteza operacional que afasta investidores que buscam previsibilidade.
“Não haverá investimentos em renováveis nos próximos dois ou três anos. E, portanto, essa necessidade de reciclar capital é menos necessária, por isso não avançamos na venda dos projetos de Novo Oriente e Pereira Barreto.”
Venda de Ativos Solares Congelada
A dificuldade em alavancar novos investimentos já se manifestou na tentativa frustrada da EDP de alienar dois de seus importantes ativos solares: os complexos de Pereira Barreto (252 MW) e Novo Oriente (254,6 MW). Apesar da contratação do BTG Pactual para intermediar a venda, o processo não avançou, sublinhando a percepção de que o ambiente atual não favorece a negociação de projetos de geração renovável no país. A perda de competitividade das fontes limpas nos últimos anos é um fator crucial, fazendo com que o capital busque outros horizontes.
Foco na Transmissão de Energia
Diante desse panorama, a EDP reajustou sua estratégia, direcionando seus esforços para o setor de transmissão de energia. Este segmento é considerado mais estável e menos suscetível às oscilações do mercado, oferecendo maior segurança para os investimentos. A companhia já confirmou sua participação nos leilões de transmissão de energia e está avaliando o certame para sistemas de armazenamento por baterias, ambos programados para o segundo semestre de 2026. Essa mudança reflete uma busca por resiliência e previsibilidade em um mercado volátil.
Impacto Ampliado no Setor Elétrico
A visão da EDP não é isolada. Nos últimos dois anos, observa-se um movimento generalizado de cautela entre as empresas do setor elétrico brasileiro. Muitas têm revisado seus planos de expansão em geração renovável, realocando recursos para áreas mais tradicionais e consideradas menos arriscadas, como a transmissão e a distribuição de energia. Este cenário indica uma desaceleração na corrida por novas fontes de energia limpa em prol da estabilidade dos negócios existentes.
O Debate dos Subsídios e Custos
A viabilidade de novos projetos é ainda mais comprometida pela combinação de elementos, incluindo a presença de subsídios e uma alocação de recursos vista como ineficiente. Esses fatores, segundo o mercado, distorcem o ambiente, gerando maior cautela por parte dos investidores. Em 2025, os incentivos no setor foram responsáveis por mais de 18% do custo final da tarifa de energia, um peso significativo.
Martins pontua que os incentivos concedidos à geração distribuída são um dos pontos que mais “pesam na conta” do consumidor. Dados da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) indicam que, somente em 2025, o segmento de geração distribuída recebeu R$ 14,4 bilhões em subsídios, um valor que levanta discussões sobre a sustentabilidade e a equidade do sistema tarifário.
A paralisação dos investimentos em energia renovável pela EDP e por outras grandes empresas é um sinal claro das barreiras que o Brasil precisa superar para consolidar sua transição energética. Para leitores interessados em energia limpa e sustentabilidade, o desafio agora é entender como o país pode reajustar suas políticas e estruturas de mercado para reacender o interesse e o capital em um setor tão crucial para o futuro. A atenção se volta para os próximos leilões e para a capacidade do governo em criar um ambiente mais previsível e atraente para o capital privado em geração renovável, ao mesmo tempo em que endereça a questão dos subsídios e da eficiência da alocação de recursos.






















