A corrida por minerais críticos e a expansão da IA colocam em xeque a sustentabilidade das transições energética e digital, gerando debates sobre custos e responsabilidades globais.
A crescente demanda por minerais essenciais para a transição energética e a rápida expansão das infraestruturas de inteligência artificial (IA) estão gerando um impacto significativo em recursos como minerais, energia e água.
Essa dualidade, onde as soluções para a crise climática aumentam a pressão sobre ecossistemas e comunidades, é o foco central da nova coleção internacional Empire of Extraction: Capital, Crisis, and Struggles for Climate Justice.
Organizada pela brasileira Elisangela Soldateli Paim, a obra reúne uma análise aprofundada do extrativismo contemporâneo e suas intrincadas conexões com a emergência climática.
A publicação, lançada oficialmente em outubro durante uma conferência internacional em Sarajevo, expõe a contradição de um mundo que busca descarbonizar enquanto simultaneamente expande o consumo de recursos naturais para alimentar novas tecnologias.
A Contradição das Transições: Energia Renovável vs. Demanda por Minerais
A expansão das energias renováveis e das tecnologias digitais, incluindo a inteligência artificial, paradoxalmente, eleva a necessidade de minerais raros e críticos.
A coleção Empire of Extraction aborda essa complexa questão através de estudos de caso que abrangem América Latina, Europa, África, Ásia e Estados Unidos.
O trabalho destaca como a busca por soluções para o aquecimento global pode reproduzir e até intensificar antigas lógicas de exploração e desigualdade.
A obra, dividida em quatro volumes, investiga a exploração de minerais para baterias e sistemas de energia limpa, o crescimento de infraestruturas digitais como data centers e criptomoedas, os mecanismos de financiamento climático e as intersecções entre extrativismo, desigualdades sociais e o racismo ambiental.
Ao mapear quem detém o controle sobre os recursos e quem suporta os custos socioambientais, a coleção convida a uma reflexão mais profunda sobre a justiça na transição.
Elisangela Soldateli Paim afirmou:
A justiça ambiental exige olhar para a transição para além da descarbonização. É preciso discutir quem controla seus meios, quem se apropria dos ganhos e quem paga os custos sociais e ecológicos desse processo.
EcoSoc Conference Sarajevo: Um Palco para Debates Cruciais
O lançamento da coleção coincidiu com a EcoSoc Conference Sarajevo, um evento que debateu a necessidade de transformações que vão além das chamadas transições verdes superficiais.
A conferência reuniu pesquisadores, ativistas e movimentos sociais para discutir estratégias em diversas áreas, incluindo produção, trabalho e energia, com um foco claro na construção de alianças por justiça social e ecológica.
Durante a conferência, a sessão Decolonising Ecosocialism: Struggles, Knowledge and Transformation contou com a moderação de Elisangela Soldateli Paim, ao lado de nomes como Ashish Kothari (Índia) e Nnimmo Bassey (Nigéria).
O debate explorou como lutas indígenas, camponesas e comunitárias no Sul Global podem inspirar modelos de autogoverno territorial e transições energéticas lideradas por comunidades.
A coleção Empire of Extraction e os debates promovidos em eventos como a EcoSoc Conference em Sarajevo são fundamentais para questionar a ideia de que avanços tecnológicos isolados garantam uma transição justa.
Eles ressaltam a importância de analisar as relações de poder, os impactos territoriais e a distribuição equitativa dos benefícios e custos em um mundo que navega pelas complexidades da sustentabilidade e da revolução digital.
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