O Brasil projeta instalar 60 milhões de medidores inteligentes até 2035, impulsionando a digitalização do setor elétrico e preparando a infraestrutura nacional para a abertura do mercado livre de energia.
A modernização da rede elétrica brasileira caminha para uma transformação tecnológica sem precedentes. Com a expansão do mercado livre de energia, o país enfrenta o desafio de implementar, na próxima década, cerca de 60 milhões de novos medidores inteligentes. Essa infraestrutura é considerada o alicerce indispensável para uma gestão eficiente do consumo e da geração distribuída, conforme apontam especialistas do setor.
A transição está diretamente ligada à nova legislação, como a Lei 15.269/2025, que amplia o acesso de consumidores comerciais, industriais e, futuramente, residenciais ao mercado competitivo. Sem a precisão oferecida pela medição digital, o sistema brasileiro encontraria dificuldades em valorizar o custo da eletricidade de forma dinâmica, o que poderia gerar distorções significativas nos preços cobrados dos usuários.
O papel estratégico da tecnologia no setor elétrico
Diferente dos modelos convencionais, os dispositivos inteligentes permitem o registro de dados em intervalos horários, fornecendo um diagnóstico em tempo real do fluxo de energia. Esse salto de qualidade tecnológica vai além do simples registro de consumo; ele é o motor que viabiliza a eficiência energética e permite que o consumidor tenha um controle mais ativo sobre seus gastos mensais.
“O medidor inteligente é central para a transição energética. Se a energia não for corretamente valorada ao longo do dia, haverá distorções na forma como ela é consumida e remunerada”, reforça Alexandre Viana, CEO da Envol Energy Consulting.
Desafios financeiros e o horizonte de investimento
Dados do Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2025, da EPE, mostram que o Brasil possui uma base superior a 94 milhões de unidades consumidoras. Para Gustavo Franceschini, sócio da Envol, o mercado endereçável para essa modernização gira em torno de 60 a 70 milhões de unidades. Considerando o custo atual de mercado e a baixa penetração atual — estimada entre 5% e 6% —, o investimento total para a substituição dos equipamentos pode oscilar entre R$ 25 bilhões e R$ 35 bilhões.
“Não se trata apenas de uma evolução tecnológica, mas de um elemento estruturante para a modernização do setor elétrico”, complementa Alexandre Viana.
Políticas públicas e o caminho para a digitalização
Para acelerar a adoção da tecnologia, especialistas defendem que o Brasil foque em políticas industriais voltadas à fabricação nacional, reduzindo a dependência da importação. Paralelamente, o movimento de modernização já está na agenda da Aneel. A agência reguladora avançou com a Consulta Pública nº 001/2026, buscando diretrizes para digitalizar as redes de baixa tensão e eliminar gargalos regulatórios existentes.
A comparação internacional reforça que o Brasil possui um vasto campo para expansão, especialmente quando observamos países como Estados Unidos, Reino Unido e Japão, que já possuem taxas de cobertura significativamente mais altas. A conclusão dos especialistas é clara: o sucesso da abertura do mercado elétrico nacional e a integração de fontes renováveis dependem diretamente desta infraestrutura de dados. Ao promover essa mudança, o país não apenas moderniza seu sistema, mas garante a escalabilidade necessária para um futuro sustentável e descentralizado.























