O subproduto do biogás guarda um tesouro para a agricultura brasileira, mas sua exploração tem sido deixada de lado.
O Brasil tem uma oportunidade desperdiçada em suas mãos: o digestato, um resíduo da produção de biogás, possui um imenso potencial como fonte de fertilizantes. Essa visão é defendida por Cícero Bley, CEO da Bley Energias, que aponta para uma lacuna significativa na forma como o país tem abordado o tema, especialmente em relação à regulamentação do Profert (Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes).
Durante sua participação no 13º Fórum do Biogás, realizado em São Paulo, Bley fez um contraponto com a estratégia adotada pela Europa. Naquele continente, o Programa Europeu de Fertilizantes 2050 já reconhece a importância dos fertilizantes derivados da digestão anaeróbica como parte fundamental da solução para a escassez global desses insumos, exacerbada por tensões geopolíticas. No Brasil, contudo, a discussão ainda engatinha.
Digestato: um tesouro negligenciado na economia circular
Bley ressalta que o atual projeto de lei do Profert não abarca plenamente o potencial fertilizante do digestato. Ele sugere que, mesmo com a aprovação do texto como está, há margem para explorar essa vertente na fase de normatização. Essa estratégia permitiria que o Brasil, um país que importa cerca de 80% dos fertilizantes que utiliza, comece a aproveitar os nutrientes valiosos contidos no digestato, como nitrogênio, fósforo e potássio.
A exploração do digestato como fertilizante representa um avanço significativo para a economia circular. O processo de biodigestão, que gera o biogás, também produz o digestato. Historicamente, este último tem sido subutilizado ou mesmo descartado, um “defeito de origem” da indústria brasileira, segundo Bley. Além da recuperação de nutrientes essenciais, a gestão da água presente no digestato é crucial para a manutenção do próprio processo de biodigestão.
O CEO da Bley Energias também aponta para a resistência de empresas importadoras de fósforo, que poderiam ver seu mercado abalado pela produção nacional de fertilizantes a partir do biogás. Para superar esses obstáculos, Bley defende a necessidade de uma atuação mais incisiva da sociedade civil organizada, a fim de pressionar por avanços e consolidar a soberania produtiva de fertilizantes no país.
A iniciativa de transformar o digestato em um fertilizante de valor é um passo importante para a sustentabilidade da agricultura brasileira, reduzindo a dependência externa e promovendo um ciclo mais fechado e eficiente de recursos.























