O setor elétrico brasileiro atravessa uma transformação estrutural onde a flexibilidade operacional se torna crucial, exigindo dos consumidores uma gestão ativa e estratégica para capturar valor no mercado livre.
Por Vanessa Huback e Raphael Guimarães*
O setor elétrico brasileiro atravessa uma transformação estrutural em que a flexibilidade operacional passa a ser tão relevante quanto o custo da energia. A combinação de mudanças regulatórias e na conjuntura internacional tem alterado a forma como consumidores capturam valor no mercado, exigindo uma abordagem mais ativa da gestão energética. A aprovação da Lei nº 15.269, em novembro de 2025, marca um ponto de inflexão nesse processo. Ao estabelecer a abertura total do mercado livre até 2028, a lei redefine a lógica econômica do setor. O ganho, antes concentrado no contrato de fornecimento, migra para a gestão ativa do consumo através de tecnologias inovadoras.
O papel do armazenamento no novo cenário regulatório
Neste cenário, soluções como os sistemas de armazenamento de energia por baterias, conhecidos como BESS – sigla para Battery Energy Storage System – passam a desempenhar papel central. Esse movimento é reforçado pelo avanço das discussões sobre tarifas horárias da ANEEL. A capacidade de deslocar o consumo entre diferentes períodos tarifários deixa de ser uma opção para representar uma vantagem econômica direta. O armazenamento, ao permitir essa flexibilidade, consolida-se como um instrumento relevante de gestão de custo e risco. Ao mesmo tempo, a alta no preço do diesel reduz a atratividade de geradores de backup, tornando as baterias uma alternativa economicamente viável e sustentável.
Aprendizados com experiências internacionais
Experiências globais indicam que o armazenamento já deixou de ser uma tecnologia emergente. Em agenda técnica recente na China, foi possível observar o nível de maturidade dessas soluções. Empresas globais como a Huawei já operam com sistemas integrados em aplicações industriais onde o armazenamento ocupa um papel estrutural.
“A instalação foi concluída em menos de um mês, com operação em dois ciclos diários de carga e descarga. O sistema é utilizado para arbitragem de energia e redução de demanda na ponta, com payback estimado em cerca de quatro anos.”
Este modelo demonstra a viabilidade da eficiência energética em larga escala.
Perspectivas para a indústria nacional
Embora ainda em estágio inicial no Brasil, a lógica de arbitragem de energia e redução de demanda é diretamente aplicável à nossa realidade tarifária. O avanço regulatório e o aumento dos custos energéticos tendem a ampliar o espaço para essas tecnologias em diversos perfis de consumidores. Mais do que uma alternativa complementar, o armazenamento tende a se consolidar como peça-chave na nova dinâmica do setor.
Ao reduzir a exposição a variações tarifárias, o BESS deixa de ser uma solução acessória e passa a ocupar um papel estratégico na forma como os consumidores interagem com o mercado, garantindo maior competitividade e previsibilidade.
*Vanessa Huback é Head de Inteligência de Mercado da Tyr Energia
*Raphael Guimarães é Diretor Comercial da Tyr Energia






















