Avanço regulatório no Brasil promete atrair investimentos em data centers, transformando desafios ambientais em oportunidades.
O setor de tecnologia, impulsionado pela crescente demanda por inteligência artificial e serviços digitais, tem visto uma expansão sem precedentes na infraestrutura de data centers. No entanto, essa expansão também gera preocupações sobre o consumo de energia e o uso de recursos hídricos.
O Brasil, buscando capitalizar esse crescimento, está prestes a finalizar a regulamentação do Redata, um regime tributário especial que visa atrair novos investimentos em centros de dados. A lei, sancionada em setembro de 2026, ainda aguarda a definição crucial do que se qualificará como energia de “baixa emissão”, um passo fundamental para a sua plena implementação.
A expansão global da demanda por energia para alimentar data centers é notável. Estimativas apontam para um aumento de mais de 100% no consumo mundial até 2030.
No Brasil, a projeção é igualmente expressiva, com pedidos de conexão de 38 GW já registrados, o que representa uma parcela significativa da capacidade energética instalada do país.
Para que o Brasil se posicione como um polo atrativo para esses investimentos, é imperativo o estabelecimento de regras claras e eficientes, garantindo que o país possa capturar uma fatia relevante desse mercado global em expansão, em vez de perder essa oportunidade para outras regiões.
Desafios globais e a visão brasileira
Embora a adoção de tecnologias digitais e inteligência artificial seja uma tendência irreversível, a construção de grandes centros de dados tem enfrentado resistência em diversas partes do mundo.
O fenômeno Nimby (Not In My Backyard – “No meu quintal, não”) surge principalmente de duas preocupações: o custo da expansão da infraestrutura elétrica necessária para atender à demanda crescente e a pressão sobre recursos locais como água e terra.
Dados do Fórum Econômico Mundial indicam que muitos data centers já operam em áreas com escassez hídrica, e a oposição local tem levado ao cancelamento de projetos bilionários, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.
Contrariando a abordagem de recusa, o Brasil adota uma perspectiva que busca transformar essas preocupações em oportunidades.
A proposta é que a regulação incentive a adaptação dos projetos para que os data centers deixem de ser vistos como um problema e passem a ser parte da solução.
Isso envolve alinhar a operação dessas megacargas com a flexibilidade do sistema elétrico e a gestão sustentável de recursos naturais.
A ideia é atrair investimentos que não apenas atendam à demanda tecnológica, mas que também contribuam para a resiliência e sustentabilidade do setor energético e ambiental.
Flexibilidade energética: A chave para a sustentabilidade
A integração dos data centers ao sistema elétrico pode ser otimizada através da modulação de sua carga.
Estudos, como o do Nicholas Institute da Universidade Duke, sugerem que a flexibilização da demanda em apenas 1% das horas de pico pode reduzir significativamente a necessidade de investimentos em novas usinas térmicas.
Essa flexibilidade não só gera economia, estimada entre US$ 40 bilhões e US$ 150 bilhões em uma década, mas também direciona a nova capacidade para fontes renováveis, beneficiando todos os consumidores com tarifas mais baixas.
No contexto brasileiro, a oportunidade é ainda mais promissora. Com um excedente de energia renovável durante o dia, especialmente de fontes eólica e solar, data centers flexíveis podem atuar como um “balão de oxigênio” para o sistema.
Ao deslocar seu consumo para os horários de maior disponibilidade de energia limpa, eles aproveitam essa oferta abundante, permitindo adiar investimentos em geração e infraestrutura de rede.
Essa estratégia é um componente essencial para a descentralização e modernização do setor elétrico, alinhada com os objetivos de energia limpa e sustentabilidade.
Oportunidades na gestão de recursos e regulação inovadora
A gestão integrada de recursos como energia, água, minerais e terra é fundamental.
A alta demanda de água por data centers, prevista para atingir níveis significativos globalmente, exige que os novos empreendimentos considerem os limites hídricos e sociais locais.
A solução passa por projetos que utilizem resfriamento em circuito fechado, localizem-se próximos a fontes de energia limpa e implementem métricas de impacto ambiental abrangentes.
A regulação brasileira tem a chance de incentivar o que se chama de best in class, priorizando projetos que demonstrem compromisso com a sustentabilidade e a flexibilidade energética.
A portaria que definirá o conceito de “baixa emissão” no âmbito do Redata é vista como um marco para implementar essa visão.
Ao invés de simplesmente acomodar a demanda crescente, a proposta é usar a regulação como ferramenta para atrair os investimentos que colaboram ativamente para a solução dos desafios energéticos e ambientais do país.
Essa abordagem proativa, focada em atrair os melhores em sua classe, visa garantir que o avanço tecnológico dos data centers ocorra de forma harmoniosa com o desenvolvimento sustentável.
















