A Fitch Ratings rebaixou o rating da CEEE-G, geradora de energia da CSN, de grau de investimento para especulativo, sinalizando aumento substancial do risco de inadimplência.
O mercado de energia limpa e sustentável observa com atenção a recente decisão da Fitch Ratings de rebaixar significativamente a classificação de risco de crédito da CEEE-G. A geradora de energia, integralmente controlada pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), viu seu rating cair de BBB-(bra) para CCC+(bra), um movimento que a retira do patamar de grau de investimento e a posiciona em um nível considerado de alto risco de inadimplência no cenário nacional.
Essa alteração drástica reflete a deterioração da própria avaliação de crédito da CSN e sublinha os profundos laços financeiros e operacionais que ligam as duas empresas. Além do rating corporativo, a terceira emissão de debêntures da CEEE-G, no valor de R$ 1,2 bilhão, também foi afetada, recebendo a mesma classificação CCC+(bra). A agência de risco mantém a nota em observação negativa, indicando que novos rebaixamentos podem ocorrer.
Os Laços que Atam: CSN e CEEE-G
Apesar de a CEEE-G apresentar, individualmente, um perfil de crédito considerado superior ao de sua controladora, a Fitch equipara as classificações devido à intrincada estrutura financeira e às condições de suas dívidas. A aquisição da CEEE-G pelo grupo CSN em 2021, após a privatização pelo governo gaúcho, criou uma forte interdependência.
Uma das principais preocupações da agência reside na cláusula de vencimento antecipado automático das debêntures da CEEE-G, que pode ser acionada por eventos de crédito relacionados à CSN. Tal arranjo expõe diretamente a dívida da geradora à saúde financeira da siderúrgica.
“A agência considera aberto o acesso da CSN ao caixa e às decisões financeiras da CEEE-G, que é sua subsidiária integral e não possui políticas formais de gestão financeira individualizada.”
Essa falta de políticas financeiras independentes, somada a mútuos que totalizavam R$ 605 milhões em junho de 2026, com vencimento em janeiro de 2027 (e potencial renovação até 2042), reforça a visão da Fitch sobre a unidade financeira das empresas.
No âmbito operacional, cerca de metade da energia consumida pela CSN em 2026 é fornecida pela CEEE-G, gerando sinergias estimadas em R$ 300 milhões. No entanto, essa concentração também é vista como uma vulnerabilidade para a geradora.
Desafios Financeiros e Projeções para a Geradora
Apesar das sinergias, a situação financeira da CEEE-G apresenta desafios próprios. A Fitch projeta um fluxo de caixa livre negativo para 2026 e 2027, acumulando cerca de R$ 350 milhões.
Esse cenário é influenciado por planos de investimentos em energia de R$ 570 milhões, destinados à recuperação e expansão de ativos como a usina de Jacuí, atingida por enchentes em 2024 no Rio Grande do Sul, e a unidade de Bugres.
Espera-se que o Ebitda da CEEE-G cresça de R$ 180 milhões em 2026 para R$ 310 milhões em 2027, com a maturação dos investimentos. Contudo, essa melhora não deve ser suficiente para gerar um fluxo de caixa positivo no período.
A dívida total é projetada para se manter em torno de R$ 2,1 bilhões nos próximos anos, com indicadores de alavancagem elevados, embora com uma tendência de queda, como a relação dívida líquida/Ebitda, que deve passar de 6,9 vezes para 4,4 vezes. Em 30 de junho, a dívida da CEEE-G totalizava R$ 2 bilhões, distribuídos entre debêntures, mútuos com a CSN e financiamentos do BNDES.
Portfólio Hidrelétrico e Riscos Climáticos
A CEEE-G opera com um portfólio robusto de 1,1 GW de capacidade instalada, majoritariamente concentrado em geração hidrelétrica. Quatro grandes usinas no Rio Grande do Sul respondem por mais de 90% de sua receita e 95% de sua capacidade.
Essa concentração geográfica e tecnológica, embora represente um pilar para a energia limpa do estado, aumenta a exposição da empresa a eventos climáticos severos, como as enchentes que afetaram Jacuí em 2024.
O portfólio inclui ainda 11 Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), que somam 34,5 MW. A manutenção e expansão dessas infraestruturas são cruciais para a segurança energética regional e para a resiliência do setor elétrico frente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
O rebaixamento da CEEE-G pela Fitch Ratings acende um alerta sobre a estabilidade financeira da geradora de energia, impulsionado, em grande parte, pelos riscos associados à CSN.
A observação negativa reforça a necessidade de monitoramento contínuo dos indicadores financeiros da empresa, especialmente em um contexto de grandes investimentos para a modernização e recuperação de seus ativos hidrelétricos.
Para o setor de energia limpa, a situação destaca a importância da governança e da diversificação de riscos, principalmente para empresas com um papel estratégico na matriz energética regional e uma forte dependência de uma única controladora. A capacidade da CEEE-G de navegar por esse cenário desafiador e manter seu papel no fornecimento de energia sustentável será fundamental para sua trajetória futura.
















