O Brasil desponta como um destino estratégico para data centers globais, oferecendo energia renovável até 50% mais barata que competidores internacionais, mas a infraestrutura de rede trava o crescimento.
O Brasil vive um momento de virada na atração de grandes investimentos tecnológicos. Com custos de energia renovável que variam entre US$ 50/MWh e US$ 60/MWh — praticamente metade do preço praticado em polos de tecnologia como a Virgínia, nos EUA, ou em países do Sudeste Asiático —, o país se posiciona como um porto seguro para a demanda voraz por eletricidade dos centros de dados voltados à Inteligência Artificial (IA).
Contudo, a vantagem competitiva brasileira esbarra em um desafio de infraestrutura: a capacidade de conectar, com rapidez e eficiência, cargas que escalam da casa das centenas de megawatts até gigawatts. A avaliação é de Marcio Trannin, vice-presidente da Voltalia no Brasil, que durante o evento InterSolar South America, alertou que o potencial do país só será plenamente aproveitado se o planejamento de rede acompanhar a urgência da transição energética.
A corrida por infraestrutura e o papel do Pnast
A implementação da Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (Pnast) é vista pelo setor como um passo fundamental para introduzir sinais de mercado no planejamento. O mecanismo permite que investidores sinalizem onde e quanta energia demandarão, facilitando a expansão direcionada. Entretanto, para especialistas, a transição entre o modelo tradicional de planejamento e essa nova dinâmica de mercado ainda carece de agilidade.
O Brasil tem energia que está na metade do preço desses países que, supostamente, são os competidores do Brasil. Você está tentando retroalimentar a expansão da rede via estímulos puramente de mercado. A gente se encastelou como país, pensando que o Brasil continua sendo aquele país hidrotérmico, enquanto o mercado está atropelando esse planejamento.
Observou Marcio Trannin.
Desafios logísticos e estratégias de mercado
O gargalo não é restrito às fronteiras nacionais. Em todo o mundo, a dificuldade em instalar linhas de transmissão, transformadores e subestações em tempo hábil é um problema global compartilhado por empresas como a ADA Infrastructure. Conforme aponta Piero Carli, vice-presidente da companhia, o desafio reside na complexidade física de entregar potências elevadas em espaços reduzidos, exigindo soluções criativas como a cogeração ou até microcentrais nucleares em mercados mais maduros.
A Voltalia, ciente desses entraves, tem adotado uma postura proativa no território brasileiro. A empresa está desenvolvendo projetos como o localizado no Porto do Pecém (CE), com 322 MW de potência, que teve sua rota convertida de hidrogênio verde para atender à crescente demanda por data centers, focando na integração entre geração renovável e cargas industriais de grande porte.
O futuro: fertilizantes e soberania industrial
Além da tecnologia, o cenário de energia limpa e barata abre margem para a reindustrialização. Trannin defende que o Brasil não deve focar apenas na exportação de insumos como a amônia verde, mas aproveitar a sinergia entre energia renovável e o agronegócio.
Ao produzir fertilizantes localmente, o país poderia reduzir sua dependência externa, estimada em 95% de importação. A meta é clara: utilizar a competitividade das fontes eólicas e solares não apenas para alimentar servidores, mas para alicerçar uma cadeia industrial robusta e sustentável, transformando a vantagem tarifária em soberania econômica nos próximos anos.























