O CEO da PSR, Luiz Barroso, aponta falhas estruturais no LRCap de baterias e sugere que o leilão trata, no atacado, um desafio que deveria ser solucionado no varejo.
O aguardado leilão de reserva de capacidade (LRCap), voltado para a contratação de sistemas de armazenamento por baterias e previsto para dezembro, enfrenta questionamentos sobre seu desenho estratégico. Para Luiz Barroso, líder da consultoria PSR, a atual estrutura do certame tenta resolver, por meio de uma centralização estatal, desequilíbrios que têm origem no consumo e na baixa tensão.
Durante sua participação no MinutoMega Talks, realizado na última quinta-feira (20/08) em São Paulo, o especialista argumentou que a falta de sinais de preços eficientes para o consumidor final força o governo a intervir. Segundo o executivo, o setor elétrico brasileiro carece de uma estrutura tarifária mais sofisticada e de uma maior adoção de tecnologias de medição inteligente, o que permitiria aos próprios agentes reagirem à oferta e à demanda sem a necessidade de um leilão de reserva.
Baterias como ativos de rede
Uma das críticas centrais de Barroso reside na classificação dos projetos. Ele defende que as baterias deveriam ser contratadas sob a lógica de ativos de transmissão, conforme viabilizado pela Lei 15.269/2025, em vez de serem tratadas apenas como fonte de geração. Nesse modelo, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) identificaria pontos críticos da rede que necessitam de suporte, promovendo uma concorrência voltada para a eficiência da infraestrutura.
“O leilão agora de dezembro deveria estar sendo organizado com a bateria como um ativo de transmissão. O ONS especifica quanto precisa de megawatt em cada nó do sistema e você faz o leilão ali”, pontuou o CEO.
O especialista ressalta que o armazenamento pode substituir investimentos convencionais, como reforços em subestações, muitas vezes com um custo menor para o consumidor, desde que o planejamento seja assertivo.
Riscos operacionais e a precificação
Outro ponto de atenção é a localização dos ativos. Existe o temor de que, sem critérios locacionais rigorosos, as baterias sejam instaladas apenas onde há margem de conexão disponível, e não onde o sistema realmente precisa de estabilidade. Caso haja um movimento coordenado de carga e descarga, o país corre o risco de enfrentar um novo fenômeno de curtailment, limitando a eficiência dos sistemas.
Além disso, Barroso enfatiza a urgência de integrar esses novos ativos ao Dessem, o modelo de programação e formação de preços. Para ele, ignorar as baterias no cálculo do preço de curto prazo gera uma distorção perigosa:
“Se a bateria não estiver dentro do modelo, essa operação vai ser feita como? Dado que ela vai afetar a formação de preço. Ela mexe no físico, então mexe no preço. Tem que estar no modelo”, afirmou.
Por fim, o executivo questiona a metodologia de rateio dos custos do leilão entre os geradores. Para Barroso, atribuir encargos de forma ampla aos produtores de energia pode penalizar agentes de forma injusta e desconectada da real responsabilidade pelo suporte necessário ao sistema. Apesar do ceticismo quanto ao modelo atual, o CEO da PSR defende o pragmatismo, sugerindo que, embora não seja o desenho ideal, as contratações são passos necessários para garantir a segurança energética enquanto o mercado avança em direção a sinais econômicos mais precisos.
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