Rede elétrica sob ataque: Queimadas causam mais que o triplo de interrupções em cinco anos.
O fornecimento de energia elétrica no Brasil tem sofrido um impacto alarmante com o aumento das queimadas. Um levantamento recente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), com base em dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), revela um crescimento expressivo: as interrupções causadas por incêndios mais que triplicaram em um período de cinco anos.
Em 2020, foram registradas 24.994 ocorrências. Este número saltou para 85.674 em 2025, representando um aumento de 242,8%. Embora o ritmo de crescimento tenha apresentado uma leve desaceleração em 2025 – com um aumento de 11,12% em relação aos 77.101 casos de 2024 – o cenário geral é de alerta, especialmente com a aproximação do período de estiagem.
O Ponto Crítico da Estiagem e o Risco Ampliado
A combinação de baixas chuvas, vegetação mais seca e temperaturas elevadas, características do período de estiagem, cria um cenário propício para a proliferação de incêndios. Esses eventos representam um risco direto para a infraestrutura de distribuição de energia. A expectativa de condições climáticas ainda mais severas para 2026 intensifica a atenção das empresas do setor para a temporada de queimadas.
A análise da série histórica da Abradee evidencia uma forte sazonalidade. Mais da metade das interrupções ocorridas em 2024 e 2025 se concentraram entre agosto e outubro, meses marcados pela seca em grande parte do país.
Setembro foi o mês com maior incidência de casos nos dois anos, seguido por agosto e outubro. Em 2025, o mês de outubro apresentou um volume recorde, sugerindo uma possível extensão do período de maior risco.
Pedro Regoto, Head de Operações Meteorológicas da Climatempo, destaca que os registros prévios à estação crítica já sinalizam a necessidade de um monitoramento redobrado. Ele aponta para alterações na distribuição dos focos de calor, com um aumento notável na Amazônia e a persistência de um corredor de risco que abrange estados como Mato Grosso, Pará, Tocantins, Maranhão e Bahia.
Concentração Regional e Impacto nos Estados
A distribuição geográfica das ocorrências reflete a severidade das secas regionais. O Nordeste foi a região mais afetada em 2024 e 2025, respondendo por mais de 50% das interrupções causadas por queimadas. A região Norte aparece em seguida, com mais de 31%. O Sudeste contribuiu com cerca de 12%, enquanto Sul e Centro-Oeste apresentaram índices menores.
No recorte estadual, o Pará liderou o ranking em 2025, com 48.822 interrupções. Pernambuco e Bahia também registraram números elevados. Outros estados como Piauí, Maranhão, Alagoas, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Goiás também enfrentaram volumes relevantes de falhas no fornecimento devido a incêndios.
Respostas e Prevenção: Um Esforço Conjunto
Diante desse cenário, as distribuidoras de energia têm intensificado suas estratégias de prevenção e resposta. A adoção de tecnologias como drones, helicópteros, sensores térmicos e sistemas avançados de monitoramento permite a identificação precoce de focos de calor antes que atinjam a rede elétrica.
A manutenção preventiva e a limpeza de faixas de segurança ao redor das linhas de transmissão também têm sido priorizadas, assim como parcerias com órgãos meteorológicos, Corpo de Bombeiros e outras entidades públicas.
Patricia Audi, presidente da Abradee, enfatiza que as ações das distribuidoras precisam ser complementadas por políticas públicas de prevenção e pela participação ativa da sociedade. Ela ressalta a importância da integração entre os órgãos governamentais e do engajamento da população na conscientização sobre os riscos das queimadas.
A Abradee reforça a necessidade de evitar práticas como queimadas para limpeza de terrenos, o uso de balões e a manutenção de fogueiras próximas à vegetação e à rede elétrica. O descarte inadequado de cigarros em áreas secas ou próximas a estradas também é um fator de risco significativo.
Em situações de incêndio, a recomendação é acionar o Corpo de Bombeiros e notificar a distribuidora de energia responsável, evitando intervenções diretas em áreas próximas a equipamentos elétricos devido ao perigo de acidentes.
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