O setor de seguros assume um papel estratégico na adaptação climática do Brasil, atuando na prevenção de riscos e na proteção financeira de cidades, infraestrutura e agronegócio diante do aumento de eventos extremos no país.
Os eventos climáticos extremos deixaram de ser uma possibilidade distante para se tornarem um desafio urgente para a gestão pública e privada no Brasil. A premissa de que catástrofes surgem onde a vulnerabilidade social encontra a fragilidade territorial norteou o encontro “Riscos Climáticos e o Setor Segurador: como ampliar a resiliência do Brasil?”, realizado pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS).
O evento destacou que, em um país onde a grande maioria da população reside em centros urbanos, a adaptação climática deve ser integrada ao planejamento das cidades e dos investimentos em infraestrutura. O objetivo central é utilizar o seguro não apenas como um mecanismo de reparação após desastres, mas como um instrumento preventivo capaz de mapear vulnerabilidades e incentivar a resiliência em todo o território nacional.
O seguro como pilar de resiliência e planejamento
Especialistas reforçam que a lógica tradicional, baseada apenas no histórico de eventos passados, é insuficiente para os desafios atuais. Segundo Maria Netto, do iCS, é preciso incorporar os riscos climáticos ao planejamento estrutural de forma transparente.
“A lógica do seguro é entender que o risco existe, precificar esse risco e, preferencialmente, fazer com que o seguro não precise ser acionado. Isso também ajuda no planejamento.”
A ciência desempenha um papel fundamental nesse processo. Thelma Krug, da Organização Meteorológica Mundial, ressaltou que, embora incertezas científicas sobre eventos como o El Niño persistam, a inação não é uma opção viável. O mercado segurador precisa evoluir sua modelagem de risco para antecipar impactos e proteger tanto o setor produtivo quanto as populações mais expostas.
Risco climático orienta novos investimentos
No campo da infraestrutura, a percepção mudou drasticamente. Claudia Prates, da CNseg, observou que o risco climático passou a influenciar diretamente o fluxo de caixa e a viabilidade econômica de projetos. Ao considerar esses fatores na estruturação das concessões públicas, é possível melhorar a precificação e garantir a longevidade dos ativos frente a cenários de mudanças climáticas.
O BNDES, por meio da superintendente Luciene Machado, confirmou essa tendência: o risco climático já afeta o custo de financiamento e o rating das operações de crédito. Essa mudança de paradigma força governos e empresas a adotarem intervenções técnicas mais robustas para preservar a infraestrutura contra inundações, tempestades e outros fenômenos.
Fortalecendo o agronegócio com dados
O setor de agronegócio é um dos mais sensíveis à variabilidade climática. Daniel Nascimento, da FenSeg, defende que a proteção rural deve evoluir para modelos mais inteligentes, utilizando análise de solo e sensoriamento para oferecer produtos personalizados, como o seguro paramétrico.
“A seguradora precisa se apropriar das informações coletadas por análise de solo e sensoriamento para oferecer melhores condições e precificar o risco que está aceitando, em vez de tratar todos pela média.”
A integração de dados e a colaboração entre cooperativas, produtores e o mercado de seguros são essenciais para criar uma rede de proteção mais eficiente. A conclusão dos especialistas é unânime: o futuro exige uma agenda coordenada entre ciência, governança e gestão financeira. Ao colocar o risco no centro da tomada de decisão, o Brasil pode fortalecer sua capacidade de resposta e garantir a continuidade dos negócios, mesmo em um cenário global de crescentes desafios climáticos.























