Em busca de menor risco e otimização da rede, a Casa dos Ventos direciona novos investimentos para regiões fora do Nordeste, mirando Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul.
A Casa dos Ventos, uma das líderes em desenvolvimento de energia renovável no Brasil, está redefinindo sua estratégia de expansão geográfica. Em um cenário de crescentes cortes de energia, conhecidos como curtailment, que geram perdas financeiras significativas para o setor, a companhia busca mitigar riscos ao desviar o foco de novos projetos do Nordeste para outras regiões do país. Este movimento estratégico visa otimizar o retorno dos investimentos em energia limpa.
A decisão reflete uma tendência de mercado impulsionada pela necessidade de equilibrar a rápida expansão da geração renovável com a capacidade da infraestrutura de transmissão. Com uma meta ambiciosa de alcançar 11 GW de capacidade instalada até 2030, a Casa dos Ventos, que já possui 4,3 GW em operação e 2,1 GW em construção, adota uma abordagem mais cautelosa e analítica para seus próximos passos.
Mitigando Riscos com Nova Metodologia
Para guiar seus futuros investimentos, a Casa dos Ventos implementou uma metodologia própria para avaliar o risco de curtailment em diferentes localidades. Essa ferramenta interna se tornou um pilar fundamental na tomada de decisão, permitindo à empresa identificar e priorizar áreas com menor probabilidade de interrupção na geração de energia. A companhia reconhece que os desafios de rede são desiguais em território nacional, o que justifica a diversificação regional.
“Nós não ignoramos o cenário. Ele entra nos cálculos de preço e de retorno dos projetos. Dado que o portfólio é muito grande, estamos priorizando áreas com menor perfil de corte.”
Lucas Araripe, diretor-executivo da Casa dos Ventos
A aposta em novos projetos agora se concentra em estados como Mato Grosso do Sul, onde o volume de cortes é residual. A empresa já está investindo R$ 5,12 bilhões em complexos solares na região, incluindo as usinas de Rio Brilhante (491 MW), Seriemas (450 MW) e Paraíso (640 MW). O complexo Seriemas, inclusive, já conta com um contrato de autoprodução para abastecer a Dow, gigante da indústria química. O Rio Grande do Sul também está no radar da companhia devido ao seu baixo índice de curtailment.
Desafios no Nordeste e o Impacto do Curtailment
Historicamente, o Nordeste tem sido um polo da geração renovável, abrigando 52% da potência solar e 93% da capacidade eólica do Brasil, conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). No entanto, a região também concentra a maior parte dos cortes, respondendo por 78% do volume nacional. Entre janeiro e abril de 2026, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) registrou um corte médio de 2.843 MW, representando 17,2% da capacidade potencial, um aumento preocupante em comparação com os 15,3% do mesmo período em 2025.
O curtailment é uma medida do ONS para manter a estabilidade da rede elétrica em momentos de excesso de oferta. Esse fenômeno é agravado pela rápida conexão de novas usinas à rede, sem o acompanhamento da expansão das linhas de transmissão, além de restrições operacionais do sistema. Para os geradores, esses cortes resultam em receitas abaixo do esperado, impactando o retorno dos projetos e a capacidade de honrar dívidas, o que aumenta a incerteza para investidores e financiadores.
Apesar da reorientação, o Nordeste não será totalmente excluído dos planos da Casa dos Ventos. A empresa planeja aprovar 1,5 GW em projetos nos próximos seis meses, com foco na Bahia, mantendo a diversificação geográfica como estratégia para diluir riscos e manter o volume de cortes entre 8 a 10 pontos percentuais abaixo da média do setor.
O Papel Crescente dos Data Centers
A Casa dos Ventos opera parques eólicos e solares, vendendo sua energia, ou participação em projetos, para grandes consumidores no mercado livre de energia. Atualmente, 72% de sua capacidade vem da energia eólica e 28% da energia solar. Seu modelo de negócios se baseia em contratos bilaterais de longo prazo com empresas como Vale, Braskem e Anglo American, além de parcerias de autoprodução com Dow e ArcelorMittal.
Recentemente, a companhia levantou US$ 1,1 bilhão (equivalente a R$ 5,6 bilhões) em uma captação que atraiu 23 investidores institucionais. Esses recursos serão usados para financiar complexos eólicos no Ceará (Ibiapaba) e Piauí (Dom Inocêncio), e o complexo solar Paraíso, no Mato Grosso do Sul. Projetos cruciais têm contratos de longo prazo com a Ascenty, plataforma de data centers, e com a Omnia, que atende a demanda energética da ByteDance, controladora do TikTok.
A demanda por data centers emergiu como o principal impulsionador do crescimento da empresa. No Complexo Porto do Pecém (CE), a Casa dos Ventos já garantiu 2,7 GW em área e conexão, com 300 MW já contratados pela ByteDance na primeira fase. Em São Paulo, a empresa está desenvolvendo três projetos adicionais, cada um com 200 a 300 MW de capacidade, focados no mercado doméstico de cloud.
O hidrogênio verde, anteriormente visto como a grande aposta para absorver o excedente de energia renovável, teve sua demanda reduzida nos últimos anos, cedendo espaço para os data centers. Embora a Casa dos Ventos mantenha um projeto de hidrogênio verde em Pecém, sua viabilidade em larga escala ainda é incerta, mesmo com a TotalEnergies como potencial compradora, visando converter 500 mil toneladas anuais de hidrogênio cinza em verde.























