O financiamento para projetos de energias renováveis no Brasil cresceu 10,6% em 2025, mas ainda busca o patamar de 2022, enfrentando desafios e vislumbrando novas oportunidades no setor de energia limpa.
O cenário do financiamento de energias renováveis no Brasil mostra um panorama de recuperação e desafios. Em 2025, o volume total de recursos destinados a projetos de geração limpa atingiu a marca de R$ 36,3 bilhões. Este montante representa um crescimento notável de 10,6% em relação ao ano anterior, sinalizando um aquecimento no setor de energia limpa e sustentável.
Apesar do avanço, o valor ainda se encontra 22% abaixo do pico histórico registrado em 2022, que alcançou R$ 46,3 bilhões, conforme o recente levantamento da CELA (Clean Energy Latin America). Este estudo, que analisa os desembolsos das principais instituições financeiras, revela que o segmento de energias renováveis está em processo de reajuste, navegando por um ambiente complexo marcado por fatores como taxas de juros altos e gargalos operacionais que impactam novos investimentos em renováveis.
Resiliência da Geração Distribuída Solar
O segmento de geração distribuída solar (GD) tem demonstrado notável resiliência, mantendo-se na faixa de R$ 13 bilhões a R$ 14,7 bilhões entre 2023 e 2025. Embora este patamar seja inferior ao recorde de R$ 21,8 bilhões atingido em 2022 – um pico impulsionado pela corrida para garantir os benefícios da Lei 14.300 –, a GD tem consistentemente superado a geração solar centralizada em volume de financiamento nos anos recentes.
A capacidade de adaptação da geração distribuída é atribuída a dois fatores principais. Primeiro, sua característica estrutural: a geração e o consumo ocorrem simultaneamente, minimizando o impacto da perda de compensação de créditos e mantendo o retorno atrativo para o consumidor. Segundo, a existência de uma carteira de projetos remotos com “direito adquirido” protocolados antes de janeiro de 2023, que continuaram a ser financiados. É importante notar que o volume de GD solar pode subestimar o crescimento real do armazenamento de energia, já que sistemas de baterias contratados em conjunto com painéis solares muitas vezes são categorizados sob o financiamento fotovoltaico.
Desafios na Geração Solar Centralizada
A geração solar centralizada enfrentou uma retração significativa em seu financiamento, caindo de R$ 15,1 bilhões em 2022 para R$ 9 bilhões em 2025. Este recuo é resultado da ação conjunta de dois vetores cruciais. O primeiro são os juros altos, com a taxa Selic operando em patamares elevados – entre 13,75% e 14,25% – o que eleva substancialmente o custo de capital para novos empreendimentos no setor de energia.
O segundo desafio é a modulação da energia, uma característica intrínseca à fonte solar. A produção concentrada no período diurno gera um excesso de oferta e, consequentemente, uma pressão sobre os preços da energia exatamente quando as usinas estão em plena operação. Este cenário é agravado pela dinâmica do mercado livre de energia, onde grandes consumidores demandam fornecimento “flat” (constante), obrigando as usinas solares a buscar instrumentos de mercado em horários de pico, corroendo suas margens e dificultando a viabilidade financeira. O curtailment, que atingiu uma média de 17,1% das usinas recentemente, sem um mecanismo de ressarcimento, é um obstáculo regulatório crítico, aumentando a percepção de risco para investidores e bancos.
“O financiamento ainda não retornou ao patamar de 2022 e os desafios são reais: juros altos, curtailment sem mecanismo de ressarcimento e um mercado que ainda busca os instrumentos adequados para precificar e contratar a complementaridade entre fontes”, afirmou Camila Ramos, CEO da CELA.
“A boa notícia é que eólica e armazenamento estão ganhando papel estratégico exatamente por oferecerem as soluções que o sistema elétrico precisa, e isso deve se refletir nos volumes de financiamento dos próximos anos”, destacou a executiva.
A Recuperação Estratégica da Energia Eólica
O setor de energia eólica demonstra um vigoroso movimento de recuperação, com financiamentos totalizando R$ 12,5 bilhões em 2025. Este valor representa um impressionante aumento de 40% em relação a 2024, ano que marcou um mínimo histórico para o segmento, também impactado por juros altos e desafios de curtailment.
Diferentemente do passado, onde o crescimento eólico era impulsionado majoritariamente por leilões regulados e financiamentos de longo prazo, o novo motor da expansão é o mercado livre de energia e a autoprodução. A eólica surge como um componente estratégico, especialmente em cenários onde a solar pressiona os preços durante o dia. Com um perfil de geração mais distribuído e maior produção em períodos de baixa irradiação solar, a energia eólica complementa as outras fontes, permitindo a formação de portfólios capazes de entregar energia de forma constante ao longo do dia. Essa demanda estrutural é o pilar que sustenta os novos investimentos e o crescimento do segmento.
Expansão Subestimada do Armazenamento de Energia (BESS)
O financiamento para sistemas de armazenamento de energia (BESS) atingiu R$ 126 milhões em 2025, um avanço em relação a 2024, mas aquém do pico de R$ 280 milhões em 2023, impulsionado por emissões de debêntures e FIPs. Esta variação, contudo, não reflete o real ritmo de crescimento da tecnologia no Brasil. A oscilação deve-se mais à diversidade de instrumentos de captação – incluindo bancos, mercado de capitais e financiadores multilaterais – e à metodologia de alguns estudos.
Além disso, o custo de capital (capex) dos sistemas de baterias teve uma queda drástica, recuando 90% desde 2010, com reduções pela metade apenas em 2024. Isso significa que, mesmo com um aumento físico de instalações, o valor financiado por unidade diminui. Grande parte dos sistemas de baterias acoplados a projetos de geração distribuída ainda são classificados como financiamento fotovoltaico, tornando parte significativa da expansão do BESS “invisível” nas estatísticas. A expectativa é que os leilões exclusivos para armazenamento, programados para 2026, marquem uma nova era de escala e transparência para o segmento.
Em






















