A experiência britânica na transição energética serve como um alerta vital para o Brasil, evidenciando que os custos ocultos das renováveis podem elevar tarifas e comprometer a competitividade industrial.
A transição energética global é um objetivo inegável, mas o caso do Reino Unido revela lições cruciais que o Brasil precisa considerar antes de acelerar seus próprios processos. Embora cada país possua um sistema elétrico com características distintas, os impactos econômicos observados em solo britânico servem como um termômetro importante para a gestão de políticas públicas de energia.
O Professor Dieter Helm, renomado especialista da Universidade de Oxford, trouxe à tona uma realidade preocupante: o Reino Unido enfrenta hoje um dos preços de eletricidade mais elevados do planeta. Com uma dívida acumulada pelos consumidores que atinge a marca de 4 bilhões de libras, o setor industrial britânico sofre com a perda de competitividade, resultando no fechamento de diversas plantas fabris, inclusive no setor automotivo.
O mito do custo das energias renováveis
O cerne da análise de Dieter Helm reside no custo real das fontes de energia limpa. Frequentemente, a narrativa pública sugere que tecnologias como a eólica e a solar são as opções mais baratas disponíveis. Contudo, essa visão ignora os custos sistêmicos necessários para integrar essas fontes à rede nacional.
“As fontes renováveis estão longe de ser nove vezes mais baratas, quando se considera os custos do sistema que as mesmas causam, seja pela intermitência, seja pela falta de atributos de confiabilidade, seja pela imprevisibilidade de seu despacho pelos operadores.”
A intermitência inerente a essas fontes exige que o sistema elétrico invista pesado em infraestrutura complementar. Isso inclui a expansão de redes de transmissão, sistemas de armazenamento, capacidade de reserva e serviços ancilares para garantir a flexibilidade e a confiabilidade do fornecimento. Na prática, esses gastos extras acabam sendo repassados integralmente ao consumidor final.
Busca por eficiência e potência firme
O desafio enfrentado pelo Reino Unido evidencia uma contradição econômica: a adição massiva de fontes renováveis aumenta a necessidade de potência firme e flexibilidade, além de gerar períodos de sobreoferta que exigem o descarte de energia (o chamado *curtailment*). Para mitigar esses efeitos, o Professor Helm defende a adoção da Potência Firme Equivalente, modelo que já inspira leilões de potência em mercados como o da PJM nos Estados Unidos.
No cenário futuro, o papel do gás natural, ao lado das usinas nucleares e de tecnologias como a Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono (CCUS) em termelétricas, mostra-se essencial para garantir a segurança energética. A convergência entre essas necessidades e as prioridades do sistema elétrico brasileiro indica que a cautela deve prevalecer.
O planejamento energético brasileiro deve, portanto, evitar discursos simplistas. O aprendizado internacional reforça que a busca por uma matriz limpa não pode atropelar os princípios de confiabilidade e a modicidade tarifária. O caminho para a sustentabilidade deve ser trilhado com equilíbrio para que a conta da transição não recaia de forma insustentável sobre a sociedade e o setor produtivo nacional.






















