Brasil busca aliança com Argentina e Paraguai para exportar biocombustíveis para a Europa

Brasil busca aliança com Argentina e Paraguai para exportar biocombustíveis para a Europa
O presidente Lula (dir) e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen - Mauro Pimentel - 16.jan.26/AFP
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Brasil, Argentina e Paraguai unem forças para levar biocombustíveis sustentáveis à Europa, buscando superar barreiras e consolidar a América Latina como polo global de energia limpa e renovável.

A América Latina, liderada pelo Brasil, está forjando uma aliança estratégica com Argentina e Paraguai. O objetivo é ambicioso: pavimentar o caminho para que biocombustíveis como o etanol e o SAF (Combustível Sustentável de Aviação) alcancem o promissor mercado da União Europeia, enfrentando uma histórica resistência e barreiras regulatórias.

Essa iniciativa ganha relevância no cenário atual de transição energética global, em que a Europa busca intensamente reduzir sua dependência de combustíveis fósseis. Contudo, as políticas europeias vigentes e em discussão podem dificultar a importação dessas fontes de energia limpa produzidas na região, tornando a união sul-americana essencial para fortalecer sua posição no comércio internacional de sustentabilidade.

A Busca Europeia por Descarbonização e a Dependência Energética

As recentes crises globais, como as guerras na Ucrânia e no Irã, evidenciaram a vulnerabilidade da União Europeia à importação de petróleo e gás natural. Em resposta, o bloco acelerou seus programas para diversificar fornecedores e investir em alternativas aos fósseis. A parcela de fontes renováveis no sistema elétrico europeu saltou de 35% para 48% entre 2020 e 2024, com a meta de atingir 70% até 2050, consolidando seu compromisso com a descarbonização.

No entanto, o foco inicial da Europa na América Latina tem sido em minerais críticos e terras raras, essenciais para a indústria elétrica e de baterias. Acordos já foram firmados com Chile e Argentina, e há negociações com o Brasil, priorizando projetos de mineração. Diplomatas europeus indicam que, no momento, a importação de biocombustíveis para substituir gasolina e diesel não é uma prioridade, embora o SAF para aviação mostre maior abertura.

Desafios Regulatórios e a Percepção de Sustentabilidade

A jornada dos biocombustíveis latino-americanos enfrenta obstáculos significativos no Parlamento Europeu. Uma resolução em trâmite visa não considerar biocombustíveis de óleo de palma e soja para fins de descarbonização a partir de 2030, classificando-os como não sustentáveis. Embora a medida não proíba importações diretamente, agentes do setor temem que ela favoreça a eletrificação e possa, no futuro, ser estendida para etanol de milho ou cana-de-açúcar, matérias-primas chave do Brasil.

Além disso, uma nova norma geral de renováveis está em debate, com consulta pública para redefinir o que constitui um biocombustível sustentável. A argumentação europeia, em alguns setores, aponta que combustíveis de base vegetal competem com a produção de alimentos e podem contribuir para o desmatamento, gerando preocupações com a segurança alimentar.

A Unificação da Posição Sul-Americana

Para contrapor essas barreiras, a aliança regional é fundamental. Jerônimo Goergen, presidente da Aprobio (Associação Brasileira de Biocombustíveis), destaca a necessidade de harmonizar o discurso, apesar das distintas matérias-primas: o Brasil foca em milho e cana-de-açúcar, enquanto a Argentina utiliza principalmente soja.

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“Queremos buscar uma unificação de posição. Estamos vivendo um processo de internacionalização do setor. Europa, Japão, Canadá, todos têm potencial de compra e temos que ver de que forma a gente vai entrar nesses mercados. Eles não têm a capacidade produtiva que temos, só o Brasil consegue abastecer o mundo com SAF, biodiesel e etanol.”

A capacidade produtiva da região é um trunfo inegável. Produtores brasileiros, inclusive, adiaram viagens à Europa para consolidar essa aliança prévia, demonstrando a seriedade da iniciativa que, por enquanto, está em fase preliminar.

Potencial de Exportação e Inovação Brasileira

O atual volume de etanol brasileiro exportado para a Europa é modesto – cerca de 200 milhões de litros dos 1,6 bilhão exportados em 2025. No entanto, o acordo UE-Mercosul prevê cotas de mais de 800 milhões de litros para o etanol da América do Sul, abrindo uma janela significativa. O setor de biodiesel, que hoje exporta apenas 1% de sua produção, também vê grande potencial.

Erasmo Carlos Battistella, presidente da Be8, é otimista em relação ao biodiesel:

“O setor de biodiesel tem muito a ganhar com embarques de maior regularidade para a Europa e o continente pode se beneficiar em ter uma solução imediata de descarbonização que também reduz a dependência do diesel fóssil em situações de crises globais.”

Sua empresa já possui uma usina na Suíça e um escritório comercial na Itália, indicando o movimento estratégico do setor. Para rebater os argumentos europeus sobre desmatamento e segurança alimentar, produtores brasileiros encomendaram um estudo da USP. Este trabalho visa demonstrar que, ao contrário da Europa com uma safra anual, as condições latino-americanas permitem dois ou três ciclos de colheita por ano, utilizando áreas já cultivadas e dispensando novo desmatamento.

Conclusão: Um Futuro Sustentável com Desafios e Oportunidades

A formação da aliança entre Brasil, Argentina e Paraguai é um marco crucial para a inserção dos biocombustíveis da América Latina no mercado global de energia limpa. Apesar dos desafios impostos pelas políticas e percepções europeias sobre sustentabilidade, a união de forças regionais e a apresentação de dados científicos robustos são essenciais para transformar o cenário.

Essa coordenação pode reposicionar Brasil e seus parceiros como fornecedores estratégicos de soluções energéticas renováveis, contribuindo para a descarbonização mundial e fortalecendo a segurança energética da Europa. O sucesso da aliança não apenas abrirá um mercado vital para a América Latina, mas também poderá influenciar a redefinição das políticas energéticas da União Europeia, promovendo uma visão mais abrangente e global da transição energética.

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