Copel: leilões de armazenamento devem focar no serviço, não na tecnologia

Copel: leilões de armazenamento devem focar no serviço, não na tecnologia
Copel: leilões de armazenamento devem focar no serviço, não na tecnologia - Foto: Reprodução / Freepik | Pixbay
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Copel propõe um novo modelo para leilões de armazenamento de energia, priorizando o serviço que o setor elétrico necessita em vez de pré-definir a tecnologia.

O setor elétrico brasileiro se encontra em um ponto crucial, impulsionado pela crescente necessidade de integrar fontes intermitentes de energia limpa e sustentável. Nesse cenário, o debate sobre o armazenamento de energia ganha destaque, e a Copel, uma das grandes protagonistas do segmento, defende uma mudança fundamental na abordagem dos futuros leilões. A proposta é focar no serviço que o sistema elétrico precisa, e não em uma tecnologia específica, abrindo espaço para soluções inovadoras e mais eficientes.

Essa visão foi apresentada por Diogo Mac Cord, vice-presidente de Estratégia, Novos Negócios e Transformação Digital da Copel, durante um evento em Brasília. Ele ressaltou que o Brasil ainda precisa formalizar os atributos operativos, como a flexibilidade, para que se tornem “produtos contratáveis”, facilitando a comparação entre diferentes soluções e garantindo que o mercado possa responder de forma otimizada às demandas do sistema.

Leilões de Armazenamento: Foco no Serviço

A essência da defesa da Copel é clara: os leilões devem ser neutros em tecnologia. Isso significa que, em vez de focar em “leilões de baterias” ou “leilões de usinas reversíveis“, o objetivo deve ser a contratação de “leilões de armazenamento” capazes de entregar um serviço específico. Essa abordagem permitiria que diversas tecnologias competissem em igualdade de condições, buscando a solução mais adequada e custo-efetiva para cada necessidade do setor elétrico.

Mac Cord explicou que a escolha ideal deve ser guiada pelo problema a ser resolvido. Diferentes soluções, como baterias químicas ou usinas reversíveis, possuem características distintas em termos de potência, duração do armazenamento e resposta operativa. O mercado, através de incentivos econômicos bem definidos, seria o responsável por apontar qual tecnologia melhor se encaixa na demanda.

“Acho que é muito importante a gente não falar sobre leilões de bateria, e sim leilões de armazenamento, onde, a partir de uma entrega específica, diferentes tecnologias podem participar e entregar de acordo com o que a gente entende que seja a melhor solução.”

O Desafio da Flexibilidade e Atributos Operativos

Um dos pontos mais relevantes levantados é a lacuna existente na contratação de flexibilidade no setor elétrico brasileiro. Embora o país tenha avançado na contratação de energia e potência, o diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Gentil Nogueira, apontou que ainda faltam critérios formalizados para atributos como flexibilidade e inércia.

Essa indefinição impede uma comparação justa entre as tecnologias e dificulta a justificação para novos mecanismos de contratação. Sem métricas claras para medir e remunerar a flexibilidade ou a capacidade de reduzir o *curtailment* (descarte de energia), o setor elétrico fica limitado em sua capacidade de otimizar a operação e integrar plenamente as fontes renováveis.

Sinais de Preço e Eficiência Operacional

Além da neutralidade tecnológica, Diogo Mac Cord defendeu a implementação de sinais de preço que reflitam de forma mais precisa a realidade da operação do sistema. A proposta é adotar um “preço por oferta”, que permitiria ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) despachar recursos com base em incentivos de mercado mais alinhados às necessidades reais.

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Atualmente, hidrelétricas convencionais são frequentemente utilizadas como “baterias”, função para a qual não foram projetadas, gerando distorções. Um sistema de preços mais adequado ajudaria a corrigir essas anomalias. Mercados internacionais, como o PJM e o da Califórnia, que operam com intervalos de despacho de dez minutos, servem como exemplo de como a remuneração por sinais de mercado pode trazer vantagens às tecnologias mais eficientes para cada fim.

Baterias e Usinas Reversíveis: Complementaridade, Não Confronto

A discussão também abordou as particularidades de cada tecnologia de armazenamento. Mac Cord enfatizou que baterias químicas e usinas reversíveis não devem ser comparadas apenas pelo custo de potência instalada. As baterias oferecem menor custo por quilowatt instalado e um prazo de implantação mais curto, ideal para respostas rápidas e durações mais limitadas. As usinas reversíveis, embora exijam maior tempo de construção e um custo inicial mais elevado por quilowatt, tornam-se altamente competitivas quando a métrica é a energia armazenável em grande volume e por períodos mais longos.

Essa distinção reforça a argumentação da Copel: a decisão sobre qual tecnologia contratar deve ser ditada pela entrega esperada, seja ela uma resposta instantânea de curta duração ou o deslocamento de grandes blocos de energia ao longo do tempo.

O Caminho para um Futuro Mais Sustentável e Flexível

A proposta da Copel e os debates levantados no evento sinalizam uma evolução necessária na forma como o setor elétrico brasileiro planeja e contrata seus recursos de armazenamento. A transição para um modelo de leilões que valoriza o serviço e a flexibilidade, em vez de pré-selecionar tecnologias, é crucial para a integração eficiente de mais energia limpa e para a garantia da segurança do sistema.

Para que isso se concretize, o próximo passo essencial é que o setor elétrico, com o apoio de órgãos reguladores como a Aneel e operacionais como o ONS, defina e formalize os critérios para mensurar e remunerar os atributos de flexibilidade e armazenamento. Somente com essas definições claras, o mercado poderá, de fato, revelar as soluções mais inovadoras e eficientes, impulsionando a matriz energética brasileira rumo a um futuro mais sustentável e resiliente.

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