Associação de distribuidores de energia mobiliza-se no Congresso para apoiar PL 3.220/2019, visando garantir autonomia na gestão de postes após parecer da AGU sobre cessão obrigatória.
O intrincado universo regulatório da infraestrutura elétrica no Brasil ganhou um novo e decisivo capítulo, transferindo o centro das discussões para a arena política em Brasília. A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) formalizou seu apoio ao Projeto de Lei (PL) 3.220/2019. Este movimento estratégico ocorre em um momento crucial para o setor, sinalizando uma forte articulação das concessionárias para proteger seus interesses.
A posição da Abradee surge como uma resposta direta a uma recente decisão da Advocacia-Geral da União (AGU). O parecer da AGU impõe a obrigatoriedade da cessão de postes de energia a terceiros operadores de telecomunicações, os chamados posteiros. Este embate regulatório de grandes proporções promete redefinir a gestão e o controle de uma parte essencial da infraestrutura do país, com implicações diretas para a modernização e sustentabilidade energética.
A Origem do Impasse Regulatório
O cerne da controvérsia reside na interpretação do Decreto nº 12.068/2024, que trata da modernização dos contratos de concessão. O texto original do decreto estabelece que as distribuidoras de energia “deverão” ceder o direito de exploração comercial da faixa de ocupação dos postes para empresas de telecomunicações.
Essa redação gerou um impasse significativo entre as agências reguladoras. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) argumentava que a expressão indicava uma possibilidade, flexível às realidades do setor. Já a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) defendia a obrigatoriedade da medida, visando acelerar a organização das redes e a entrada de novos operadores.
O Parecer da AGU e a Reação do Setor Elétrico
Para dirimir esse conflito de competências, a AGU foi provocada a se manifestar. Na última sexta-feira (22), o órgão emitiu um parecer favorável à tese da Anatel, confirmando a cessão obrigatória dos ativos. Esta decisão representou um revés para as distribuidoras, que agora buscam no poder legislativo uma blindagem jurídica para seus ativos de rede.
A estratégia das concessionárias é converter em lei um texto que garanta a autonomia gerencial das empresas de distribuição de energia elétrica. Elas veem o PL 3.220/2019 como a ferramenta ideal para assegurar seus direitos e manter o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos.
O PL 3.220/2019: A Solução Proposta
O Projeto de Lei 3.220/2019, que já obteve aprovação no Senado Federal sob a relatoria do senador Esperidião Amin (PP-SC), agora tramita em caráter de urgência na Câmara dos Deputados, com relatoria do deputado Juscelino Filho (União-MA). O texto do PL propõe uma alteração substancial na governança da transição, substituindo “deverão ceder” por “poderão ceder”, alinhando-se à interpretação da Aneel.
A Abradee destaca a urgência e a importância de uma transição normativa pacífica, crucial para evitar desestruturações nos contratos vigentes. O avanço do PL é visto como fundamental para resolver problemas históricos de segurança e operacionais que afetam as redes aéreas urbanas.
O projeto oferece uma solução estrutural equilibrada para um gargalo histórico e crítico da infraestrutura nacional.
A entidade reforça que a proposta visa combater a ocupação desordenada, o emaranhado de fios sem identificação e o uso inadequado de postes, fatores que frequentemente causam incidentes como incêndios e interrupções no fornecimento de eletricidade.
Impactos na Qualidade do Serviço e na Tarifa
O PL 3.220/2019 busca instituir parâmetros claros para a fixação de preços máximos temporários e garantir isonomia no tratamento dos usuários das estruturas. Isso permitiria a regularização de ocupantes informais e a organização das redes aéreas, contribuindo para uma infraestrutura mais segura e eficiente.
Um ponto crucial para as concessionárias é a vedação do subsídio cruzado entre as tarifas de energia e as receitas acessórias da área de telecomunicações. Para a Aneel, as receitas provenientes do aluguel de postes ajudam a mitigar as tarifas de energia para os consumidores. A cessão obrigatória da gestão comercial desses ativos a terceiros poderia comprometer esse fluxo de receita, impactando o equilíbrio econômico-financeiro e, consequentemente, a conta de luz.
Com a urgência já aprovada na Câmara e o apoio explícito da Abradee, a tramitação do PL 3.220/2019 se consolida como um dos principais embates setoriais deste semestre. O foco da disputa é a prerrogativa de controle, fiscalização e remuneração da infraestrutura essencial do país, contrapondo diretamente os interesses das operadoras de telecomunicações e das concessionárias de energia, com impacto direto na sustentabilidade e qualidade dos serviços oferecidos à população.





















