A comunicação disputa não apenas com outras marcas, mas também com a rotina fragmentada por notificações, mensagens e interações constantes.
A comunicação compete não só com outras marcas, mas com uma rotina fragmentada por notificações, mensagens e interações constantes
Por Evandro Lopes – SP
Na economia digital, a visibilidade deixou de ser uma vantagem competitiva e se tornou um requisito básico. No entanto, grande parte do marketing ainda opera sob a premissa de que aparecer mais, publicar mais e interromper mais é suficiente para gerar impacto.
Essa lógica se tornou obsoleta, pois a atenção humana não funciona mais como um espaço aberto para ser preenchido. Pelo contrário, ela opera como um sistema de defesa.
De acordo com o relatório da DataReportal de 2025, adultos conectados passaram, em média, 6 horas e 38 minutos por dia online em 2025. O tempo médio diário em redes sociais foi de 2 horas e 21 minutos.
O mesmo estudo indica que o usuário médio utiliza cerca de 6,83 plataformas sociais por mês. Nesse cenário, a escassez não está na quantidade de mensagens, mas na capacidade mental de processá-las.
O colapso da atenção não é uma metáfora, é um fato comportamental. Uma pesquisa do Pew Research Center em 24 países revelou que 28% dos adultos se declaram online quase constantemente, e outros 40% acessam a internet várias vezes ao dia.
Esses dados ajudam a compreender a mudança fundamental no consumo atual. O público não está menos conectado, mas sim mais treinado para ignorar. O excesso de exposição não aumenta a receptividade, mas sim a seletividade, o ceticismo e o descarte automático.
Por isso, insistir na antiga crença de que alcance garante atenção e frequência garante memória se tornou uma cegueira estratégica. O consumidor não ficou mais difícil, mas sim mais defensivo diante de um ambiente saturado de estímulos.
No ambiente de trabalho, esse cenário é ainda mais evidente. Um estudo da Microsoft WorkLab em 2025 apontou que o trabalhador médio recebe 117 e-mails e 153 mensagens no Teams por dia útil.
A própria Microsoft demonstrou que, entre os usuários mais expostos ao fluxo digital, as interrupções ocorrem a cada dois minutos durante o expediente.
Nesse contexto, a comunicação compete não só com outras marcas, mas com uma rotina fragmentada por notificações, mensagens e interações constantes.
Onde reside o problema
O verdadeiro problema do marketing, portanto, não é a falta de mídia, tecnologia ou canais. É a persistência em se comunicar com um cérebro que opera em modo de triagem permanente.
Quando isso ocorre, criatividade sem clareza se torna ruído esteticamente agradável, volume sem contexto vira insistência e presença sem significado se traduz em desperdício.
O relatório de 2026 da Ofcom, órgão regulador de comunicações do Reino Unido, indicou que a proporção de adultos que consideram que os benefícios de estar online superam os riscos caiu de 72% para 59%.
O mesmo levantamento aponta que 40% dos usuários sentem que passam tempo demais em frente às telas na maioria dos dias.
Isso revela um público mais seletivo, menos disponível e emocionalmente menos tolerante ao excesso. Em tal ambiente, a comunicação em excesso tende a gerar saturação, não conexão.
Quando uma marca aumenta a pressão sem reduzir a fricção cognitiva, ela não amplia sua relevância, apenas se torna mais um ruído disputando espaço em uma rotina já sobrecarregada.
Isso altera o foco da estratégia. A comunicação mais valiosa não é mais aquela que interrompe com mais força, mas sim a que se integra com maior fluidez ao sistema mental do consumidor.
A principal disputa deixou de ser por espaço na tela e passou a ser por processamento mental, ou seja, por clareza, contexto, carga emocional adequada e significado suficiente para transpor filtros de atenção extremamente rígidos.
O marketing que continuará a ter sucesso será menos focado em quantidade e mais comprometido com a legibilidade mental. Isso exige uma reavaliação da mensagem, do ritmo, da repetição, do formato e da promessa. A pergunta estratégica já não é quantas pessoas foram alcançadas.
A questão agora é quantas realmente processaram, lembraram e atribuíram valor ao que receberam.
O próximo ciclo será desafiador para as marcas que confundem presença com influência. Elas continuarão investindo em mídia sem garantir memória, ampliando alcance sem gerar impacto e produzindo conteúdo que é visto, mas não assimilado.
As marcas que se destacarão serão aquelas que compreenderem uma mudança simples e drástica: em um cérebro sobrecarregado, a atenção não se conquista pela insistência, mas se conquista pela relevância.
E a relevância, agora, depende menos de ocupar o feed e mais de reduzir o ruído, facilitar o entendimento e entregar significado antes que a mente se feche.
(Evandro Lopes é CEO da SLcomm, com MBA em Marketing pela ESPM e Fundação Dom Cabral)
Visão Geral
Na era digital, a visibilidade se tornou um requisito fundamental para as marcas, e não mais uma vantagem. Contudo, muitas estratégias de marketing ainda se baseiam na ideia de que aumentar a presença e a interrupção gera resultados.
Essa abordagem é ineficaz, pois a atenção humana é limitada e funciona como um mecanismo de defesa. Dados indicam um tempo crescente de uso da internet e das redes sociais, com usuários transitando por múltiplas plataformas.
Diante da sobrecarga de informações, a capacidade de processamento mental se torna o fator limitante. O excesso de estímulos não aumenta a receptividade, mas sim o ceticismo e a capacidade de ignorar.
O problema central do marketing não é a falta de recursos, mas a insistência em abordagens que não consideram que o público opera em modo de triagem. Comunicação excessiva, sem clareza e contexto, torna-se ruído.
O público está cada vez mais seletivo e menos tolerante ao excesso. A comunicação eficaz hoje não é a que mais interrompe, mas a que se integra de forma fluida à mente do consumidor, oferecendo clareza, contexto e significado.
O marketing bem-sucedido se concentrará menos na quantidade e mais na qualidade da interação, avaliando se o público realmente processou, lembrou e valorizou a mensagem.
As marcas que se destacarem entenderão que, em um cérebro saturado, a atenção não é capturada pela insistência, mas sim merecida pela relevância, que se constrói ao reduzir o ruído e facilitar o entendimento.
Créditos: Misto Brasil





















